Laser ou agulha na síndrome dolorosa miofascial cervical: o que mostrou um ensaio clínico randomizado?
Comparação entre duas formas de estimulação dos mesmos pontos, ambas associadas à fisioterapia convencional.
Tanto o laser quanto a agulha podem ser utilizados em pontos de acupuntura e em trigger points. Mas será que um é superior ao outro? Neste artigo, analisamos criticamente um ensaio clínico randomizado publicado na revista Lasers in Medical Science em julho de 2026, discutindo o desenho do estudo, os parâmetros utilizados, os principais resultados e as limitações metodológicas.
Índice
A síndrome dolorosa miofascial cervical está entre as causas mais frequentes de dor musculoesquelética crônica e limitação funcional.
Na prática clínica, tanto a estimulação dos pontos com agulhas quanto a laseracupuntura são utilizadas para o tratamento desses pacientes. Entretanto, havia poucos estudos comparando diretamente essas duas formas de estimulação utilizando o mesmo protocolo terapêutico.
O objetivo dos autores foi verificar se existiam diferenças clínicas entre a estimulação realizada por laser de baixa intensidade e a realizada por agulhas, quando ambas fossem aplicadas sobre os mesmos pontos e associadas ao mesmo programa de fisioterapia convencional.
Como o estudo foi realizado?
Trata-se de um ensaio clínico randomizado, com avaliador cego.
Foram incluídos 100 pacientes com síndrome dolorosa miofascial cervical crônica.
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos:
Grupo Laseracupuntura: laser de baixa intensidade + fisioterapia convencional.
Grupo Agulhas: estimulação com agulhas dos mesmos pontos + fisioterapia convencional.
Todos os participantes realizaram exatamente o mesmo protocolo fisioterapêutico. A única diferença entre os grupos foi a forma de estimulação dos pontos.
O tratamento ocorreu durante seis semanas, com 18 sessões. As avaliações foram realizadas antes do tratamento, na terceira semana, ao final da intervenção e quatro semanas após o término.
Como os tratamentos foram realizados?
Grupo Laseracupuntura
Foi utilizado um laser GaAlAs infravermelho com os seguintes parâmetros:
comprimento de onda: 830 nm;
potência de aproximadamente 78,5 mW;
densidade de energia de 5 J/cm² por ponto;
frequência pulsada de 9,12 Hz;
tempo aproximado de 50 segundos por ponto.
Foram irradiados os pontos de acupuntura:
IG4 (hegu)
IG10 (shousanli)
ID3 (houxi)
TA5 (waiguan)
Além dos pontos-gatilho (trigger points) identificados individualmente nos músculos acometidos, incluindo principalmente trapézio superior, levantador da escápula e escalenos.
Grupo Agulhas
Os participantes receberam estimulação com agulhas nos mesmos pontos de acupuntura e nos mesmos pontos-gatilho musculares utilizados no grupo laser.
Foram utilizadas agulhas de 0,3 x 30mm, manipuladas até a obtenção da sensação de De Qi nos pontos de acupuntura e resposta de contração local/ espasmo local nos pontos gatilho, consideradas pelos autores como parte do protocolo terapêutico.
O que foi avaliado?
Os pesquisadores analisaram:
- intensidade da dor;
- incapacidade funcional cervical;
- amplitude de movimento;
- qualidade de vida relacionada à saúde (SF-36).
Principais resultados
Os dois grupos apresentaram melhora significativa durante o tratamento.
Em ambos ocorreu:
- redução da intensidade da dor;
- melhora da incapacidade funcional;
- aumento da mobilidade cervical;
- melhora da qualidade de vida.
Entretanto, o comportamento clínico ao longo do tempo foi diferente.
Segundo os autores, o grupo tratado com agulhas apresentou melhora mais rápida nas primeiras semanas.
Já o grupo tratado com laser apresentou evolução progressiva durante o tratamento, alcançando resultados superiores em diversos desfechos ao final das seis semanas.
Pontos fortes do estudo
Entre os principais aspectos metodológicos destacam-se:
- ensaio clínico randomizado;
- avaliador cego;
- cálculo prévio do tamanho amostral;
- protocolo fisioterapêutico padronizado para ambos os grupos;
- descrição detalhada dos parâmetros do laser;
- utilização dos mesmos pontos de acupuntura e pontos-gatilho nos dois grupos, permitindo que a principal variável comparada fosse o método de estimulação.
Limitações
Algumas limitações devem ser consideradas na interpretação dos resultados.
- Não houve grupo placebo ou grupo sem tratamento.
- Todos os participantes receberam fisioterapia convencional, o que impede avaliar o efeito isolado do laser ou da estimulação com agulhas.
- Também não foi possível realizar o cegamento dos participantes, característica comum em estudos que comparam intervenções físicas.
Além disso, o acompanhamento foi relativamente curto e os resultados se referem especificamente a pacientes com síndrome dolorosa miofascial cervical, não podendo ser extrapolados automaticamente para outras condições clínicas.
O que este estudo permite afirmar?
Este ensaio clínico demonstra que tanto o laser quanto a estimulação com agulhas, quando aplicadas sobre os mesmos pontos de acupuntura e pontos-gatilho e associadas à fisioterapia convencional, promoveram melhora clínica significativa em pacientes com síndrome dolorosa miofascial cervical crônica.
Nas condições avaliadas, a estimulação com agulhas apresentou resposta clínica mais precoce, enquanto o laser apresentou melhora progressiva ao longo do tratamento.
O que este estudo não permite afirmar?
Este estudo não demonstra que o laser seja superior às agulhas para todas as condições clínicas.
Também não permite concluir que os resultados observados seriam reproduzidos utilizando outros equipamentos, diferentes parâmetros de fotobiomodulação, outros protocolos de tratamento ou diferentes combinações de pontos de acupuntura e pontos-gatilho.
Leitura Clínica
Um aspecto importante deste estudo é compreender exatamente o que foi comparado. Não se trata de uma comparação entre acupuntura e dry needling, e sim entre agulha e laser. Ambos os grupos receberam estimulação dos mesmos pontos de acupuntura e dos mesmos pontos-gatilho musculares.
A resposta mais rápida observada com as agulhas e a melhora progressiva com o laser indicam que o uso concomitante das técnicas de aplicação (talvez ipso lateral e contralateral) podem favorecer os resultados tanto a curto quanto a longo prazos.
Referência
Zaidi F, Ahmed U, Ahmad A et al. Comparative effects of low-level laser acupuncture and dry needling on clinical and functional outcomes in patients with chronic cervical myofascial pain syndrome: a randomized controlled trial. Lasers in Medical Science. 2026. DOI: 10.1007/s10103-026-04915-3.


A Professora Ana Tanganrli para além de aliar a tradição á modernidade, uma vez mais, ali o padrão científico á demonstração dos factos. Bem haja!