Laseracupuntura pode modular a excitabilidade cortical de formas diferentes conforme o ponto estimulado?
Um estudo publicado em 2026 investigou os efeitos da laseracupuntura sobre a excitabilidade corticoespinal e encontrou respostas diferentes de acordo com o ponto utilizado.
Um estudo publicado em 2026 investigou os efeitos da laseracupuntura em diferentes acupontos sobre a excitabilidade corticoespinal. Os resultados mostraram respostas distintas conforme o local estimulado e levantam questões importantes sobre neuromodulação e especificidade dos pontos.
Índice
A laseracupuntura é frequentemente estudada a partir de seus efeitos clínicos: redução da dor, melhora funcional ou modulação de diferentes condições. Mas compreender como o estímulo aplicado em um ponto de acupuntura pode produzir respostas no sistema nervoso central é uma pergunta igualmente importante.
Um estudo publicado em 2026 por Liu e colaboradores trouxe uma contribuição interessante para essa discussão.
Os pesquisadores utilizaram laseracupuntura em três pontos diferentes — IG4 (Hegu), IG10 (Shousanli) e IG11 (Quchi) — e avaliaram seus efeitos sobre a excitabilidade corticoespinal por meio de estimulação magnética transcraniana.
O resultado chama atenção não apenas porque houve modulação após a aplicação do laser.
Os três pontos não produziram exatamente a mesma resposta.
E isso abre uma questão particularmente interessante para quem estuda e pratica laseracupuntura:
Será que o efeito depende apenas dos parâmetros do laser ou o local onde o estímulo é aplicado também interfere na resposta produzida?
O que os pesquisadores investigaram?
O estudo foi realizado com 18 adultos saudáveis, em um desenho randomizado, controlado por placebo, simples cego e crossover.
Isso significa que os mesmos participantes passaram pelas quatro condições experimentais, em ordem randomizada:
- laseracupuntura em IG4 (Hegu);
- laseracupuntura em IG10 (Shousanli);
- laseracupuntura em IG11 (Quchi);
- condição placebo.
Houve intervalo mínimo de 48 horas entre as sessões, e todas foram realizadas no mesmo período do dia para reduzir possíveis interferências relacionadas ao ritmo circadiano.
A escolha dos três pontos não foi aleatória. Segundo os autores, eles haviam sido identificados em revisão sistemática e metanálise anterior como pontos frequentemente utilizados em estudos relacionados à função motora. Os três pertencem ao canal do Intestino Grosso, mas apresentam localizações anatômicas distintas.
Como foi realizada a laseracupuntura?
Esse é um detalhe especialmente importante quando analisamos estudos de laseracupuntura.
Os pesquisadores utilizaram o sistema RJ Laser LightNeedle, modelo 508 A, com:
Comprimento de onda: 655 nm
Potência: 50 mW
Energia: 7,5 J por ponto
Tempo de aplicação: 5 minutos
Modo de aplicação: contato direto com a pele
Número de pontos estimulados em cada sessão: 1
Na condição placebo, o equipamento permanecia ligado, mas a laser needle utilizada não emitia luz. Os participantes usaram óculos de proteção durante todas as sessões, reduzindo a possibilidade de identificar visualmente se estavam recebendo a aplicação ativa ou placebo.
Há aqui um detalhe matemático que merece atenção: 50 mW durante 300 segundos correspondem a 15 J, enquanto o artigo declara uma dose de 7,5 J por acuponto. Portanto, os parâmetros apresentados no texto não fecham diretamente pela relação energia = potência × tempo. Sem informações adicionais sobre o modo efetivo de emissão ou outra característica do equipamento que explique essa diferença, não é adequado tentar corrigir o dado ou presumir qual dos valores representa a energia efetivamente entregue.
Essa inconsistência é relevante porque mostra, mais uma vez, por que a descrição completa dos parâmetros é fundamental para a interpretação e reprodução dos estudos de laseracupuntura.
Mas como medir o efeito de um ponto sobre o córtex?
Para investigar a resposta do sistema motor, os pesquisadores utilizaram estimulação magnética transcraniana — TMS.
A TMS permite avaliar, de maneira não invasiva, características da excitabilidade do sistema corticoespinal.
Entre os desfechos avaliados estavam a excitabilidade corticoespinal (CSE) e medidas relacionadas aos mecanismos intracorticais de inibição e facilitação.
Também foram realizados testes comportamentais para avaliar destreza manual e tempo de reação.
Isso torna o desenho particularmente interessante: os pesquisadores não perguntaram aos participantes simplesmente se haviam percebido alguma mudança.
Eles buscaram identificar alterações neurofisiológicas mensuráveis após a estimulação dos pontos.
O que aconteceu após a laseracupuntura?
Os três pontos submetidos à laseracupuntura apresentaram aumento significativo da excitabilidade corticoespinal quando comparados aos valores anteriores à intervenção.
Mas é quando observamos a comparação com a condição placebo que a história fica mais interessante.
IG4 e IG10 apresentaram aumento significativamente maior da excitabilidade corticoespinal em relação ao laser desligado.
Para IG11, embora tenha ocorrido aumento em relação ao próprio valor basal, a diferença em comparação ao placebo não atingiu significância estatística (p = 0,10).
Ou seja:
aplicar exatamente o mesmo estímulo luminoso em pontos diferentes não produziu resultados estatisticamente equivalentes.
Esse talvez seja o achado mais provocador do estudo.
A resposta também envolveu mecanismos intracorticais
Os pesquisadores avaliaram ainda diferentes componentes da excitabilidade intracortical.
IG4 e IG10 apresentaram alterações relacionadas à redução de mecanismos inibitórios e ao aumento da facilitação intracortical. Os autores discutem esses achados a partir da possível participação de circuitos GABAérgicos e glutamatérgicos.
Mas é importante colocar essa interpretação no lugar correto.
Os pesquisadores não mediram diretamente concentrações de GABA ou glutamato. Essas hipóteses são inferidas a partir das medidas obtidas pela TMS e do conhecimento sobre os circuitos relacionados a esses parâmetros.
Os próprios autores reconhecem essa limitação.
Portanto, o estudo mostra alterações compatíveis com modulação de mecanismos de inibição e facilitação intracortical, mas não demonstra diretamente que a laseracupuntura tenha aumentado ou reduzido determinado neurotransmissor.
Essa distinção é importante.
Houve alguma mudança funcional?
Além das medidas neurofisiológicas, foram avaliados destreza manual e tempo de reação.
No teste de destreza manual, não foram encontradas diferenças significativas entre as condições.
No tempo de reação, IG4 e IG10 apresentaram melhora em relação aos seus valores basais. Entretanto, na comparação entre condições após a intervenção, IG4 foi o ponto que apresentou tempo de reação significativamente mais rápido em relação ao sham.
Novamente, os resultados não foram idênticos entre os pontos.
Isso não significa que IG4 seja simplesmente um “ponto para melhorar tempo de reação”.
Significa que, nas condições específicas deste experimento, a estimulação de IG4 esteve associada a uma resposta comportamental que não foi observada da mesma maneira nas demais condições.
Então o estudo comprovou a especificidade dos pontos de acupuntura?
Não.
E essa talvez seja a parte mais importante da interpretação deste trabalho.
Encontrar respostas diferentes após estimular regiões diferentes não demonstra, isoladamente, que cada acuponto possua uma ação biológica exclusiva.
IG4, IG10 e IG11 não diferem apenas em suas funções dentro da Medicina Chinesa.
Eles também estão localizados em regiões com características anatômicas diferentes.
Os próprios autores discutem relações desses pontos com aferências periféricas e vias sensório-motoras. Portanto, diferenças na resposta podem envolver características anatômicas, neurofisiológicas e funcionais das regiões estimuladas.
O estudo fornece evidência de que o local de aplicação pode ser uma variável relevante na resposta à laseracupuntura.
Determinar quanto dessa diferença está relacionado à especificidade dos acupontos, à anatomia local ou à interação entre esses fatores exige outros desenhos experimentais.
É uma pergunta em aberto.
E justamente por isso é uma pergunta interessante.
Existe ainda outra variável: a expectativa
Um resultado que não deveria passar despercebido foi a associação entre a expectativa dos participantes e a magnitude da alteração da excitabilidade corticoespinal.
Entre as características individuais analisadas, a expectativa em relação à acupuntura apresentou associação significativa com a mudança da CSE. Idade, gênero e IMC não apresentaram associação significativa nesse modelo.
Isso não invalida os resultados.
Mas mostra que respostas neurofisiológicas não acontecem em um organismo isolado de seu contexto.
Expectativa, experiência prévia, características individuais e outros fatores podem participar da variabilidade das respostas às intervenções.
É mais uma razão para evitar interpretações simplistas.
O que esse estudo realmente permite concluir?
O trabalho apresenta algumas limitações importantes.
Foram apenas 18 participantes, todos saudáveis e destros. Foram avaliados efeitos imediatos, sem acompanhamento para determinar a duração das alterações observadas. O estudo também foi simples cego: o profissional responsável pela aplicação sabia qual intervenção estava realizando.
Além disso, estamos falando de alterações neurofisiológicas e comportamentais experimentais em indivíduos saudáveis.
Portanto, esses resultados não demonstram eficácia da laseracupuntura no tratamento de doenças neurológicas ou na reabilitação motora.
Os próprios autores apontam a necessidade de estudos maiores, com populações clínicas, melhor controle do cegamento e acompanhamento temporal das respostas.
Ainda assim, o trabalho oferece uma contribuição importante.
Ele demonstra que um estímulo luminoso aplicado em pontos de acupuntura pode estar associado a alterações mensuráveis da excitabilidade corticoespinal e, principalmente, que a resposta observada pode variar conforme o local estimulado.
Muito além da dose
Quando estudamos laseracupuntura, existe uma tendência compreensível de concentrar a discussão nos parâmetros:
Qual comprimento de onda?
Qual potência?
Quantos joules?
Quanto tempo?
Todas essas perguntas são fundamentais.
Mas laseracupuntura não envolve apenas quanto de luz entregamos.
Envolve também onde entregamos esse estímulo.
Este estudo não encerra a discussão sobre especificidade dos pontos. Pelo contrário: ele abre novas perguntas.
Se o mesmo estímulo luminoso aplicado em diferentes locais produz respostas neurofisiológicas distintas, precisamos investigar quais características explicam essas diferenças.
São os circuitos neurais associados à região?
As características anatômicas locais?
Existe alguma especificidade relacionada ao acuponto?
Ou estamos observando uma interação entre diferentes mecanismos?
Ainda não temos essas respostas.
Mas talvez seja justamente aí que esteja uma das fronteiras mais interessantes da pesquisa em laseracupuntura: compreender não apenas a dose que aplicamos, mas como o local escolhido participa da resposta produzida.
Referência
LIU, R.; ZHENG, Z.; MOE, A. A. K.; ZOGHI, M.; JABERZADEH, S. Laser acupuncture improves cortical excitability and behavioural performance in healthy individuals: a randomized controlled trial. BMC Complementary Medicine and Therapies, v. 26, art. 59, 2026. DOI: 10.1186/s12906-026-05259-9

