O cérebro pode ajudar a prever quem responderá melhor à acupuntura?

Um ensaio clínico publicado em 2026 utilizou ressonância magnética funcional e modelagem do conectoma cerebral para investigar não apenas se a acupuntura pode ajudar pacientes com enxaqueca, mas se características do cérebro antes do tratamento podem indicar quem tende a responder melhor.

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2026 investigou a acupuntura em pacientes com enxaqueca sem aura e utilizou conectividade funcional cerebral para avaliar se características presentes antes do tratamento poderiam prever a resposta clínica. Os resultados levantam uma questão importante para a pesquisa em acupuntura: além de perguntar se o tratamento funciona, podemos começar a investigar quem tende a responder melhor.

Quando avaliamos um tratamento, a pergunta mais comum costuma ser:

Funciona ou não funciona?

Mas essa pergunta esconde um problema importante da prática clínica.

Duas pessoas com o mesmo diagnóstico podem receber o mesmo tratamento e apresentar respostas completamente diferentes.

Uma melhora muito. Outra melhora pouco. Uma terceira simplesmente não responde.

Isso acontece com medicamentos, exercícios, técnicas de neuromodulação — e também com a acupuntura.

Por isso, talvez uma pergunta mais interessante seja:

É possível identificar, antes de iniciar o tratamento, quais pacientes apresentam maior probabilidade de responder?

Um ensaio clínico randomizado publicado em 2026 no JAMA Network Open tentou responder justamente a essa questão em pacientes com enxaqueca sem aura.

E, para isso, os pesquisadores olharam para algo muito além dos sintomas.

Eles analisaram a conectividade funcional do cérebro.

O que os pesquisadores fizeram?

O estudo incluiu 120 adultos com enxaqueca sem aura, com idade entre 18 e 65 anos. Os participantes foram randomizados em dois grupos:

60 receberam acupuntura real e 60 receberam acupuntura placebo.

Todos realizaram 12 sessões durante quatro semanas, com três atendimentos semanais e duração de 30 minutos por sessão.

No grupo de acupuntura real foram utilizados oito pontos:

VG20 (Baihui), VG16 (Fengfu), VB20 (Fengchi) bilateral, Taiyang (EX-HN5) bilateral e IG4 (Hegu) bilateral.

As agulhas foram manipuladas buscando a obtenção do Deqi.

No grupo placebo, foram utilizados oito pontos fora dos canais reconhecidos, com inserção superficial e sem obtenção de Deqi. Participantes, avaliadores dos desfechos e estatísticos permaneceram cegos para a alocação.

Mas havia uma etapa adicional.

Antes do tratamento, os participantes realizaram ressonância magnética funcional em estado de repouso — resting-state fMRI.

E é justamente aí que o estudo começa a ficar particularmente interessante.

O que é conectividade funcional?

Nosso cérebro não funciona como um conjunto de regiões independentes.

Diferentes áreas apresentam padrões de atividade temporalmente relacionados, formando redes funcionais que participam de processos como percepção, movimento, atenção, emoção e processamento da dor.

A ressonância magnética funcional em repouso permite investigar essas relações mesmo quando a pessoa não está realizando uma tarefa específica.

Nesse estudo, o cérebro foi dividido em 268 regiões, utilizando o chamado Shen atlas. Os pesquisadores calcularam as correlações da atividade entre essas regiões e construíram, para cada participante, uma matriz representando sua conectividade funcional cerebral.

Em outras palavras, eles produziram uma espécie de mapa das relações funcionais entre diferentes regiões do cérebro antes do tratamento.

Depois, utilizaram essas informações para tentar prever a resposta à acupuntura.

A acupuntura apresentou resultados clínicos?

Sim.

O principal desfecho foi a mudança no número de dias mensais de enxaqueca durante as quatro semanas de tratamento.

A acupuntura real apresentou vantagem estatisticamente significativa em relação ao placebo, com uma diferença mediana estimada entre os grupos de −1 dia mensal de enxaqueca.

Também foram encontradas diferenças favoráveis à acupuntura real em outros desfechos, incluindo:

  • dias mensais de cefaleia;
  • dias de utilização de medicação aguda;
  • intensidade da dor pela escala visual analógica;
  • impacto da cefaleia pelo HIT-6;
  • diferentes domínios de qualidade de vida avaliados pelo MSQ.

Entretanto, existe uma informação importante.

A proporção de participantes que alcançou redução de pelo menos 50% nos dias mensais de enxaqueca foi de 66,7% no grupo de acupuntura real e 53,3% no sham, mas essa diferença não atingiu significância estatística.

Isso ajuda a colocar os resultados em perspectiva.

O estudo encontrou diferenças entre os grupos, mas não estamos diante de uma separação gigantesca entre acupuntura real e placebo.

E talvez nem seja essa a parte mais interessante do trabalho.

O cérebro antes do tratamento conseguiu prever a resposta?

Em alguns desfechos, sim.

Os pesquisadores utilizaram uma técnica chamada Connectome-Based Predictive Modeling (CPM).

De maneira simplificada, o modelo procura identificar padrões de conectividade cerebral associados a determinado resultado clínico e testa se esses padrões conseguem prever a resposta individual.

Foram identificados dois resultados particularmente interessantes.

Um padrão de conectividade funcional basal conseguiu predizer a redução da intensidade da dor, medida pela escala visual analógica.

Outro padrão conseguiu predizer a melhora da incapacidade relacionada à cefaleia, medida pelo HIT-6.

Ou seja, determinadas características da organização funcional do cérebro antes de qualquer sessão de acupuntura estavam associadas à magnitude da resposta observada posteriormente.

Quais redes apareceram?

Para a intensidade da dor, o modelo identificou como relevante uma conectividade reduzida envolvendo principalmente relações entre a Default Mode Network (DMN) e regiões subcorticais/cerebelares.

Já para a melhora da incapacidade medida pelo HIT-6, destacou-se uma conectividade aumentada entre regiões subcorticais e a rede motora.

As regiões envolvidas não ficaram restritas às áreas classicamente chamadas de “centros da dor”.

Para a previsão da intensidade dolorosa apareceram, entre outras, regiões do sistema límbico, córtex pré-frontal, putâmen e regiões occipitais.

Para a incapacidade relacionada à enxaqueca apareceram estruturas como caudado, hipocampo, tálamo, córtex motor, córtex pré-frontal e cerebelo.

Isso é coerente com uma compreensão contemporânea da dor como fenômeno produzido por redes distribuídas, envolvendo percepção, emoção, cognição, comportamento e integração sensório-motora.

Isso significa que encontramos uma “assinatura cerebral” de quem responde à acupuntura?

Ainda não.

E essa distinção é fundamental.

Os próprios autores deixam claro que as características de conectividade encontradas representam uma associação com a resposta terapêutica, e não uma relação causal demonstrada.

Além disso, a capacidade preditiva foi relativamente modesta.

A correlação entre resposta prevista e observada foi de r = 0,23 para intensidade da dor e r = 0,29 para incapacidade pelo HIT-6.

São resultados estatisticamente significativos e cientificamente interessantes, mas ainda muito distantes de permitir que façamos uma ressonância de um paciente e digamos:

“Você responderá à acupuntura.”

Há outro ponto ainda mais importante.

O modelo não conseguiu prever todos os desfechos.

Não houve capacidade preditiva significativa para número de dias mensais de enxaqueca, dias de cefaleia, uso de medicação aguda ou os domínios de qualidade de vida avaliados pelo MSQ.

Portanto, não existe aqui um biomarcador universal de “resposta à acupuntura”.

Existem padrões preliminares associados a determinados aspectos da resposta clínica.

Dor e incapacidade também não são a mesma coisa

Esse resultado traz outra reflexão interessante.

O padrão cerebral associado à melhora da intensidade da dor não foi o mesmo associado à melhora da incapacidade.

Isso parece um detalhe, mas clinicamente é importante.

Reduzir a intensidade de uma dor e reduzir o impacto que essa dor produz sobre a vida de uma pessoa são resultados relacionados, mas não equivalentes.

Uma pessoa pode continuar apresentando episódios dolorosos e, ainda assim, recuperar função. Outra pode relatar redução da intensidade sem apresentar melhora proporcional da incapacidade.

O fato de diferentes padrões de conectividade terem sido associados a esses dois desfechos reforça a necessidade de não tratar “melhora clínica” como uma variável única.

O estudo mostrou que a acupuntura modificou essas redes?

Aqui precisamos ter bastante cuidado.

Não.

A ressonância magnética funcional foi realizada antes do tratamento.

O estudo utilizou a conectividade cerebral basal para tentar prever os resultados posteriores, mas não realizou uma nova fMRI após as quatro semanas de intervenção.

Portanto, esse trabalho não demonstra que a acupuntura tenha “normalizado” ou modificado aquelas conexões.

Os próprios autores reconhecem a ausência de neuroimagem pós-tratamento como uma limitação e afirmam que estudos futuros precisam acompanhar temporalmente essas alterações.

Isso é importante porque existe uma diferença enorme entre dizer:

“Esse padrão cerebral estava associado a uma resposta melhor”

e dizer:

“A acupuntura modificou esse padrão cerebral.”

Este estudo sustenta a primeira afirmação.

Não a segunda.

Então o cérebro determina quem responde à acupuntura?

Também não.

A conectividade funcional é apenas uma das muitas características que podem participar da variabilidade da resposta terapêutica.

Fatores biológicos, psicológicos, sociais, clínicos e contextuais também interferem nos resultados.

Além disso, o estudo incluiu apenas pessoas com enxaqueca sem aura, buscando uma amostra relativamente homogênea. Isso facilita a investigação experimental, mas limita a generalização dos resultados para outros tipos de enxaqueca e outras populações.

O que o trabalho mostra é algo mais cuidadoso — e talvez mais interessante:

o estado funcional do sistema nervoso antes da intervenção pode influenciar a maneira como cada indivíduo responde ao tratamento.

Talvez a pergunta esteja mudando

Durante muito tempo, grande parte da pesquisa clínica em acupuntura esteve concentrada em uma pergunta:

A acupuntura funciona?

Essa pergunta continua importante.

Mas ela não é suficiente.

Quando ensaios clínicos apresentam médias, estamos olhando para o comportamento de um grupo. Na prática clínica, entretanto, tratamos indivíduos — e indivíduos não respondem todos da mesma maneira.

É por isso que estudos como este apontam para outra direção:

Quem responde?

Quem responde melhor?

Quais características presentes antes do tratamento estão associadas a essa resposta?

E, futuramente, será que conseguiremos utilizar essas informações para escolher intervenções de maneira mais individualizada?

Ainda estamos longe de utilizar conectomas cerebrais para decidir rotineiramente quem deve receber acupuntura.

Mas a mudança de pergunta é importante.

Talvez uma das próximas etapas da pesquisa em acupuntura não seja apenas demonstrar novamente que uma intervenção produz determinado efeito médio.

Pode ser compreender por que a mesma intervenção produz respostas diferentes em pessoas diferentes.

E isso aproxima a pesquisa de uma questão que sempre esteve presente na prática clínica:

o diagnóstico pode ser o mesmo. O paciente nunca é.

Referência

ZHANG, X.; CHEN, Q.; LIU, Y. et al. Acupuncture for Migraine Without Aura and Connection-Based Efficacy Prediction: A Randomized Clinical Trial. JAMA Network Open, v. 9, n. 1, e2555454, 2026. DOI: 10.1001/jamanetworkopen.2025.55454

É professora, pesquisadora e profissional da Medicina Chinesa, com mais de 20 anos de experiência na formação de profissionais. É mestranda em Engenharia Biomédica pela Universidade Federal do ABC (UFABC), onde desenvolve pesquisa na área de laseracupuntura e fotobiomodulação. Possui formação em docência, epistemologia, didática e tecnologias aplicadas ao ensino. Seu trabalho integra a Medicina Chinesa, a fotobiomodulação e a ciência para desenvolver o raciocínio clínico e formar profissionais capazes de tomar decisões seguras, críticas e fundamentadas em evidências. (@profanatanganeli)

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