Eletroacupuntura e função cognitiva na depressão: o que mostrou um estudo randomizado?
Tratamento complementar reduziu a percepção de dificuldades de concentração, compreensão e comunicação em pessoas com transtorno depressivo maior
A depressão maior é uma condição altamente prevalente e incapacitante, frequentemente associada a prejuízos cognitivos persistentes mesmo após a melhora do humor. Este artigo apresenta e discute um estudo clínico randomizado conduzido pela Universidade de Thammasat (Tailândia), que investigou os efeitos da eletroacupuntura associada ao tratamento convencional sobre a função cognitiva, qualidade de vida e gravidade dos sintomas em pacientes com transtorno depressivo maior.
Índice
A depressão não afeta apenas o humor.
Muitos pacientes também apresentam dificuldade para se concentrar, organizar tarefas, tomar decisões, processar informações e lembrar aquilo que acabaram de aprender. Essas alterações cognitivas podem interferir no trabalho, nos estudos, na comunicação e nas atividades cotidianas, mesmo quando outros sintomas depressivos começam a melhorar.
Em 2024, pesquisadores da Universidade de Thammasat, na Tailândia, publicaram um estudo clínico piloto, randomizado e controlado para avaliar se a eletroacupuntura, acrescentada ao tratamento farmacológico convencional, poderia beneficiar a função cognitiva de pacientes com transtorno depressivo maior.
Após dez semanas, o grupo que recebeu eletroacupuntura apresentou redução significativamente maior das queixas cognitivas subjetivas, especialmente das dificuldades relacionadas à concentração, compreensão e início de conversas.
Os testes objetivos de memória e função executiva também apresentaram tendências de melhora, embora as diferenças entre os grupos não tenham alcançado significância estatística.
O estudo oferece, portanto, um resultado inicial importante: a eletroacupuntura pode ajudar o paciente a perceber menos limitações cognitivas em sua vida diária, mesmo quando essa mudança ainda não é totalmente captada pelos testes neuropsicológicos.
Cognição e depressão
O transtorno depressivo maior pode produzir diferentes alterações cognitivas.
Entre as queixas mais frequentes estão:
- dificuldade de concentração;
- redução da atenção;
- lentificação do pensamento;
- dificuldade para tomar decisões;
- redução da memória de trabalho;
- dificuldade para aprender novas informações;
- menor flexibilidade mental;
- dificuldade para iniciar ou concluir tarefas;
- prejuízo no planejamento e na organização.
Essas alterações não são secundárias ou irrelevantes.
Um paciente pode apresentar redução da tristeza ou da ansiedade e, ainda assim, continuar com dificuldade para estudar, trabalhar, conversar ou executar atividades que antes realizava com facilidade.
A persistência dessas queixas pode comprometer o retorno às atividades profissionais, reduzir a autonomia e aumentar a sensação de incapacidade.
Por isso, avaliar apenas a intensidade do humor deprimido não oferece uma visão completa da evolução do paciente. A função cognitiva também precisa ser acompanhada.
Queixa cognitiva subjetiva e desempenho objetivo são a mesma coisa?
Não.
A função cognitiva pode ser avaliada de pelo menos duas maneiras.
Testes objetivos
São tarefas padronizadas que medem habilidades como:
- memória;
- atenção;
- velocidade de processamento;
- flexibilidade cognitiva;
- inibição de respostas automáticas;
- capacidade executiva.
Esses testes mostram como a pessoa se desempenha em uma situação controlada.
Percepção do paciente
Também é possível perguntar como as dificuldades cognitivas interferem na vida diária.
O paciente pode relatar, por exemplo:
- dificuldade para acompanhar uma conversa;
- perda frequente do raciocínio;
- necessidade de reler o mesmo texto;
- lentidão para tomar decisões;
- dificuldade para iniciar tarefas;
- menor confiança na própria capacidade;
- prejuízo no trabalho ou nos estudos.
Os dois tipos de avaliação são importantes, mas não são equivalentes.
Uma pessoa pode melhorar sua percepção de funcionamento cotidiano antes que a mudança seja claramente observada em um teste neuropsicológico. Também pode acontecer o contrário: o desempenho melhora, mas o paciente ainda se sente cognitivamente comprometido.
O estudo tailandês avaliou essas duas dimensões.
Qual foi o objetivo do estudo?
O objetivo foi investigar o efeito da eletroacupuntura sobre:
- funções executivas;
- memória tardia;
- queixas cognitivas subjetivas;
- qualidade de vida;
- gravidade dos sintomas depressivos.
Os pesquisadores estavam especialmente interessados em pessoas com transtorno depressivo maior que continuavam apresentando problemas de concentração e cognição apesar de já estarem em tratamento convencional.
O estudo foi realizado durante a pandemia de COVID-19 e, por questões relacionadas à segurança e ao distanciamento, foi adaptado para um projeto piloto com 60 participantes. A proposta era produzir dados preliminares capazes de orientar um ensaio clínico maior.
Quem participou?
Foram incluídos 60 pacientes atendidos no ambulatório de psiquiatria do Hospital Universitário de Thammasat.
Os participantes:
- tinham entre 18 e 55 anos;
- apresentavam diagnóstico de transtorno depressivo maior;
- relatavam dificuldades de concentração ou cognição;
- estavam em tratamento psiquiátrico havia pelo menos três meses;
- apresentavam risco suicida considerado baixo;
- tinham sintomas depressivos de intensidade leve a moderada.
Pessoas com depressão grave, definida no estudo por pontuação igual ou superior a 20 no PHQ-9, não foram incluídas.
Também foram excluídos participantes com condições que poderiam interferir significativamente na cognição ou na segurança da eletroacupuntura, como:
- acidente vascular cerebral;
- doença de Parkinson;
- epilepsia;
- lesões cerebrais;
- déficits cognitivos graves;
- eletroconvulsoterapia recente;
- marca-passo;
- condições clínicas que impedissem permanecer deitados durante o tratamento.
A amostra era predominantemente feminina e relativamente jovem, com idade média aproximada de 28 anos. Os participantes apresentavam sintomas depressivos havia, em média, entre três e quatro anos.
Como os participantes foram distribuídos?
Os participantes foram distribuídos aleatoriamente em dois grupos:
Grupo de eletroacupuntura
Recebeu:
- tratamento farmacológico convencional;
- acupuntura corporal e no couro cabeludo;
- estimulação elétrica em pontos selecionados;
- uma sessão semanal durante dez semanas.
Grupo de controle
Recebeu:
- tratamento farmacológico convencional;
- procedimento de acupuntura simulada;
- aplicações realizadas na primeira e na décima semana.
Os participantes e os avaliadores dos resultados não sabiam a qual grupo cada pessoa pertencia.
O profissional que aplicava os procedimentos, naturalmente, conhecia a intervenção utilizada.
Todos continuaram recebendo o acompanhamento psiquiátrico e os medicamentos prescritos. Entre os fármacos utilizados estavam antidepressivos, benzodiazepínicos e, em alguns casos, antipsicóticos como medicação complementar.
Como foi realizada a eletroacupuntura?
O grupo experimental recebeu uma combinação de pontos no couro cabeludo e nas extremidades.
Pontos do couro cabeludo
Foram utilizados:
- VG20 — Baihui;
- Sishencong — EX-HN1;
- VG24 — Shenting;
- VB13 — Benshen, bilateralmente;
- E8 — Touwei, bilateralmente.
VG24 e os dois pontos VB13 formaram a combinação apresentada no artigo como os “três pontos da inteligência”.
Pontos distais
Também foram utilizados bilateralmente:
- F3 — Taichong;
- P9 — Taiyuan;
- R3 — Taixi.
É importante registrar que a versão mais recente do estudo não inclui E36 ou PC6 no protocolo experimental.
As agulhas permaneceram inseridas por 20 minutos. O protocolo não exigiu a obtenção formal do De Qi como condição para a aplicação.
A estimulação elétrica foi aplicada em VB13 e E8, bilateralmente, com:
| Parâmetro | Valor descrito |
|---|---|
| Tensão do aparelho | 9 V em corrente contínua |
| Frequência | 50 Hz |
| Forma de estimulação | Onda densa contínua |
| Corrente | Inferior a 1 mA |
| Tempo | 20 minutos |
| Frequência das sessões | Uma vez por semana |
| Duração do tratamento | Dez semanas |
Os parâmetros representam o protocolo específico desse estudo. Não devem ser interpretados como uma indicação universal para todos os pacientes com depressão ou alterações cognitivas.
Como foi realizada a acupuntura simulada?
O grupo de controle recebeu uma inserção muito superficial em IG4 — Hegu, bilateralmente, com agulhas curtas e sem estimulação elétrica.
O procedimento foi aplicado apenas duas vezes:
- na primeira semana;
- na décima semana.
O objetivo era oferecer uma experiência semelhante à acupuntura sem reproduzir a intensidade e a frequência do tratamento experimental.
A diferença no número de sessões é relevante para compreender o estudo: o grupo experimental recebeu, em média, aproximadamente 8,5 aplicações, enquanto o controle recebeu cerca de 1,8.
Esse desenho permitiu comparar o programa de eletroacupuntura com uma intervenção mínima, mantendo o tratamento farmacológico em ambos os grupos.
Quais avaliações foram utilizadas?
Os pacientes foram avaliados antes do início e ao final das dez semanas.
Trail Making Test B
Avalia funções como:
- flexibilidade cognitiva;
- atenção;
- velocidade de processamento;
- capacidade de alternar entre diferentes sequências.
O participante precisa conectar elementos seguindo uma ordem determinada. Quanto menor o tempo necessário, melhor tende a ser o desempenho.
Stroop Color and Word Test
Avalia especialmente:
- atenção seletiva;
- velocidade de processamento;
- controle inibitório;
- capacidade de evitar uma resposta automática.
ADAS-Cog — memória tardia
Foi utilizada uma parte da escala para avaliar a recuperação tardia de informações, relacionada à memória.
WHODAS 2.0
O WHODAS foi utilizado para avaliar a percepção dos participantes sobre dificuldades cognitivas e funcionais nos 30 dias anteriores.
A seção mais importante para o resultado do estudo investigava problemas relacionados a:
- concentração;
- pensamento;
- análise;
- aprendizagem;
- compreensão;
- início e manutenção de conversas.
PHQ-9
Foi utilizado para avaliar a intensidade dos sintomas depressivos.
Essas ferramentas permitiram observar não apenas o desempenho em tarefas cognitivas, mas também a experiência do paciente em sua vida cotidiana.
O que os resultados mostraram?
Os dois grupos apresentaram alguma melhora ao longo das dez semanas.
No grupo de eletroacupuntura foram observadas tendências favoráveis em:
- função executiva;
- controle inibitório;
- memória tardia;
- percepção da função cognitiva;
- sintomas depressivos.
Entretanto, quando os pesquisadores compararam diretamente a mudança entre os grupos, apenas a redução das queixas cognitivas subjetivas atingiu significância estatística.
Principal resultado
Na dimensão cognitiva do WHODAS 2.0:
- o grupo de eletroacupuntura apresentou redução mediana de 5,5 pontos;
- o grupo de controle não apresentou mudança mediana;
- a diferença entre os grupos teve p = 0,049.
Isso indica que, após o tratamento, os participantes do grupo de eletroacupuntura relataram menos dificuldades relacionadas à concentração, compreensão, aprendizagem e comunicação.
O que significa melhorar uma queixa cognitiva subjetiva?
A palavra “subjetiva” não significa que o resultado seja irrelevante ou inventado.
Ela indica que a informação foi fornecida pelo próprio paciente, e não medida exclusivamente por um teste de desempenho.
Na prática, o paciente pode perceber que:
- consegue manter a atenção por mais tempo;
- compreende melhor uma conversa;
- apresenta menos dificuldade para organizar o pensamento;
- inicia tarefas com maior facilidade;
- sente-se mais capaz de estudar ou trabalhar;
- conversa com menos esforço;
- recupera parte da confiança em sua capacidade mental.
Essas mudanças podem ter grande importância funcional, mesmo quando o ganho em testes objetivos ainda é pequeno.
Em saúde mental, a experiência do paciente é uma parte legítima da avaliação. O ideal é que os estudos integrem percepção subjetiva, desempenho objetivo e funcionamento diário.
Houve melhora nos testes objetivos?
Foram observadas tendências de melhora, mas as diferenças entre os grupos não atingiram significância estatística.
| Desfecho | Mudança mediana: eletroacupuntura | Mudança mediana: controle | Valor de p |
|---|---|---|---|
| Trail Making Test B | −15,0 | −21,5 | 0,553 |
| Stroop — palavras | +8,0 | +3,0 | 0,216 |
| Stroop — cores | +8,5 | +0,5 | 0,184 |
| Stroop — palavras e cores | +4,0 | +1,5 | 0,064 |
| Memória tardia | +1,5 | +1,0 | 0,476 |
| Queixas cognitivas subjetivas | −5,5 | 0 | 0,049 |
| PHQ-9 | −1 | −1 | 0,077 |
O teste de Stroop que combina palavras e cores apresentou uma diferença próxima da significância estatística, com p = 0,064.
Isso pode ser interpretado como um sinal interessante para novos estudos, principalmente porque essa tarefa está relacionada à capacidade de inibir respostas automáticas e controlar a atenção.
A amostra piloto pode não ter tido tamanho suficiente para detectar diferenças menores nos testes objetivos.
A eletroacupuntura reduziu a depressão?
Os sintomas depressivos diminuíram numericamente no grupo de eletroacupuntura.
A pontuação média do PHQ-9 passou de aproximadamente 14,5 para 9,9. No grupo de controle, passou de 15 para 13,1.
Entretanto, na análise utilizada para comparar a mudança entre os grupos, a diferença não atingiu significância estatística.
Portanto, o estudo não demonstrou um efeito adicional conclusivo da eletroacupuntura sobre a gravidade global da depressão.
Esse resultado não reduz a importância do achado cognitivo. Ele sugere que a percepção de melhora da função mental pode não depender apenas da redução do humor deprimido.
Também é possível que um protocolo com maior frequência de sessões, maior número de participantes ou duração diferente produza outros resultados. Essa hipótese ainda precisa ser testada.
E a qualidade de vida?
Algumas dimensões do WHODAS relacionadas à funcionalidade e à qualidade de vida apresentaram redução numérica das dificuldades.
Entretanto, a diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa nessas dimensões.
O resultado positivo concentrou-se na parte do instrumento relacionada às funções cognitivas e à comunicação.
Isso torna a conclusão do estudo mais específica: o benefício identificado foi sobre a percepção das dificuldades cognitivas, e não uma melhora global demonstrada em todas as áreas da qualidade de vida.
O tratamento foi seguro?
Não foram observados eventos adversos graves relacionados à eletroacupuntura ou ao procedimento de controle.
Os autores não identificaram complicações como:
- lesões nervosas;
- lesões de órgãos;
- infecções;
- alergias;
- reações graves.
Esse resultado apoia a viabilidade da eletroacupuntura como tratamento complementar nessa população selecionada.
Entretanto, o estudo excluiu pessoas com marca-passo, depressão grave e diferentes condições neurológicas ou clínicas. A segurança observada deve ser interpretada dentro desse perfil de participantes.
Como os pontos podem ser compreendidos na Medicina Chinesa?
O estudo não realizou diferenciação de síndromes. Todos os participantes do grupo experimental receberam o mesmo protocolo.
Ainda assim, a combinação revela uma estratégia coerente de integração entre pontos cefálicos e distais.
VG20 — Baihui
VG20 possui relação tradicional com o cérebro, o Shen e a organização do Yang.
Pode ser incluído em estratégias para:
- clarear a mente;
- beneficiar o cérebro;
- regular o Shen;
- melhorar atenção e concentração;
- atuar sobre alterações emocionais e cognitivas.
Sishencong — EX-HN1
Os quatro pontos de Sishencong são utilizados em alterações relacionadas a:
- memória;
- concentração;
- sono;
- agitação;
- funcionamento mental.
A associação com VG20 concentra a estimulação na região cefálica.
VG24 e VB13
VG24 — Shenting — e os pontos bilaterais VB13 — Benshen — formam a combinação conhecida como “três pontos da inteligência”.
Tradicionalmente, são utilizados para:
- beneficiar o cérebro;
- acalmar e organizar o Shen;
- melhorar memória;
- favorecer clareza mental;
- atuar em alterações emocionais e cognitivas.
E8 — Touwei
E8 encontra-se na região temporal e pode ser utilizado para beneficiar a cabeça e favorecer a circulação local do Qi.
No estudo, foi um dos pontos conectados à estimulação elétrica.
F3 — Taichong
F3 favorece o livre fluxo do Qi do Fígado.
Sua presença pode ser compreendida dentro de uma estratégia para:
- reduzir estagnação;
- regular o movimento do Qi;
- atuar sobre irritabilidade e tensão;
- favorecer a relação entre emoção e funcionamento mental.
P9 — Taiyuan
P9 tonifica o Qi do Pulmão e possui relação tradicional com os vasos.
Dentro de uma composição mais ampla, pode contribuir para o movimento do Qi e para a sustentação da circulação.
R3 — Taixi
R3 fortalece o Rim e sustenta a base do Yin, do Yang e da Essência.
Sua inclusão pode ser relacionada à compreensão tradicional de que o Rim nutre o cérebro e sustenta funções relacionadas à memória, à vontade e à capacidade de manter esforço mental.
A combinação tratava uma síndrome específica?
Não.
O protocolo reuniu pontos capazes de atuar sobre:
- cérebro;
- Shen;
- Fígado;
- Pulmão;
- Rim;
- circulação do Qi;
- atenção e memória.
Trata-se de uma estratégia ampla, destinada a participantes com o mesmo diagnóstico biomédico.
Na prática clínica da Medicina Chinesa, pacientes com depressão e dificuldade cognitiva podem apresentar diferentes mecanismos, como:
- estagnação do Qi do Fígado;
- deficiência do Qi do Baço;
- deficiência de Qi e Sangue;
- deficiência da Essência do Rim;
- deficiência do Yin;
- Fleuma obscurecendo os orifícios;
- Estase de Sangue;
- desarmonia entre Coração e Rim;
- perturbação do Shen;
- combinações entre deficiência e obstrução.
O estudo avaliou a eficácia de uma combinação padronizada. Ele não comparou esse protocolo com um tratamento individualizado.
Por isso, os pontos oferecem uma referência de pesquisa, e não uma prescrição universal para depressão.
Por que utilizar eletroacupuntura na cabeça?
A estimulação elétrica permite oferecer pulsos repetitivos e relativamente constantes durante o período de retenção das agulhas.
No estudo, a eletroacupuntura foi aplicada entre pontos cefálicos relacionados à cognição e ao Shen.
Os pesquisadores consideraram possíveis mecanismos como:
- modulação da atividade neural;
- influência sobre o fluxo sanguíneo cerebral;
- participação de fatores neurotróficos;
- regulação vascular;
- alterações relacionadas ao BDNF;
- participação do VEGF e do óxido nítrico.
Esses mecanismos foram propostos a partir de pesquisas anteriores, incluindo estudos experimentais e investigações realizadas em outras condições neurológicas.
O estudo tailandês não mediu BDNF, VEGF, óxido nítrico ou fluxo sanguíneo cerebral. Portanto, essas explicações são biologicamente plausíveis, mas não foram diretamente demonstradas nos participantes.
Uma sessão semanal foi suficiente?
O protocolo produziu um resultado significativo sobre as queixas cognitivas mesmo com apenas uma sessão semanal.
Esse é um aspecto interessante, especialmente por se tratar de um tratamento relativamente pouco frequente.
Os próprios autores consideraram a possibilidade de que aplicações mais frequentes produzissem efeitos mais claros sobre testes objetivos e sintomas depressivos.
Em estudos de acupuntura para condições neurológicas e psiquiátricas, é comum encontrar duas, três ou mais sessões semanais.
Entretanto, ainda não é possível afirmar que aumentar a frequência melhoraria necessariamente o resultado. Seriam necessários ensaios comparando diretamente diferentes doses de tratamento.
O estudo mostra que um protocolo semanal é viável e pode produzir benefício percebido. A frequência ideal permanece em investigação.
Pontos fortes do estudo
O trabalho apresenta características importantes:
- distribuição aleatória dos participantes;
- controle com procedimento simulado;
- participantes cegos;
- avaliadores cegos;
- manutenção do tratamento psiquiátrico em ambos os grupos;
- utilização de testes objetivos e avaliações subjetivas;
- análise por intenção de tratar;
- avaliação de segurança;
- protocolo de dez semanas;
- foco específico nas alterações cognitivas da depressão.
Outro aspecto positivo foi a escolha de pacientes que continuavam apresentando queixas cognitivas apesar de já estarem em tratamento havia pelo menos três meses.
Isso aproxima a pergunta da realidade clínica: a eletroacupuntura não foi utilizada para substituir o cuidado psiquiátrico, mas para investigar um possível benefício complementar.
O que ainda precisa ser investigado?
Como estudo piloto, o trabalho foi planejado para identificar sinais de benefício e orientar pesquisas maiores.
Os próximos estudos poderão esclarecer:
- se o resultado se repete em amostras maiores;
- qual é a relevância clínica da redução de 5,5 pontos;
- se os benefícios permanecem depois do tratamento;
- se duas ou três sessões semanais produzem maior resposta;
- quais pontos são indispensáveis;
- se a estimulação elétrica acrescenta benefício à acupuntura manual;
- quais pacientes respondem melhor;
- se existe relação com o padrão da Medicina Chinesa;
- se o tratamento melhora o retorno ao trabalho ou aos estudos;
- se há mudanças em biomarcadores ou neuroimagem;
- se os resultados aparecem em pessoas com outras idades e níveis de gravidade.
Também seria interessante utilizar um grupo de controle com número de encontros semelhante ao do grupo experimental, permitindo equilibrar melhor o tempo de atendimento e o contexto terapêutico.
Essas questões não anulam o resultado atual. Elas mostram o caminho para confirmar e compreender melhor o efeito observado.
O que o estudo permite concluir?
O estudo oferece evidência inicial de que a eletroacupuntura, acrescentada ao tratamento convencional, pode reduzir a percepção de dificuldades cognitivas em pessoas com transtorno depressivo maior leve ou moderado.
O benefício foi observado principalmente em atividades relacionadas a:
- concentração;
- compreensão;
- pensamento;
- aprendizagem;
- análise;
- comunicação.
Também foram observadas tendências favoráveis em alguns testes objetivos e na intensidade dos sintomas depressivos, embora essas diferenças não tenham alcançado significância estatística.
O que não deve ser concluído?
O estudo não demonstra que:
- a eletroacupuntura substitua antidepressivos;
- a eletroacupuntura trate sozinha o transtorno depressivo maior;
- todos os sintomas cognitivos sejam corrigidos;
- o protocolo seja adequado para depressão grave;
- uma sessão semanal seja a frequência ideal;
- os pontos utilizados constituam uma fórmula universal;
- o resultado tenha ocorrido por aumento de BDNF ou fluxo cerebral;
- a estimulação de 50 Hz seja superior a outras frequências;
- o benefício permaneça depois das dez semanas.
Essas perguntas permanecem abertas.
Aplicação clínica
O estudo reforça a possibilidade de integrar a eletroacupuntura ao cuidado de pessoas com depressão que apresentam queixas como:
- dificuldade de atenção;
- pensamento lento;
- dificuldade de compreensão;
- redução da capacidade de estudar;
- dificuldade para iniciar tarefas;
- menor segurança na comunicação;
- prejuízo funcional associado à cognição.
A primeira etapa, porém, não deve ser simplesmente repetir o protocolo.
O profissional precisa avaliar:
- diagnóstico e acompanhamento psiquiátrico;
- intensidade atual da depressão;
- medicamentos utilizados;
- risco suicida;
- sono;
- ansiedade;
- função cognitiva percebida;
- impacto no trabalho ou nos estudos;
- padrão da Medicina Chinesa;
- contraindicações para eletroacupuntura;
- resposta ao tratamento ao longo das sessões.
A eletroacupuntura deve ser apresentada como tratamento complementar, e não como substituta do acompanhamento médico, psicológico ou farmacológico.
O estudo incluiu apenas participantes com baixo risco suicida e excluiu pessoas com depressão grave. Em situações de risco agudo de suicídio, sintomas psicóticos ou ameaça à vida, a prioridade é o encaminhamento para atendimento de emergência.
Como acompanhar os resultados?
O profissional pode registrar antes e durante o tratamento:
- intensidade da dificuldade de concentração;
- tempo tolerado em uma tarefa;
- capacidade de acompanhar conversas;
- frequência de esquecimentos;
- dificuldade para ler;
- capacidade de iniciar e concluir tarefas;
- desempenho nos estudos;
- impacto profissional;
- sensação de lentidão mental;
- qualidade do sono;
- sintomas depressivos;
- efeitos adversos;
- mudanças realizadas pela equipe de saúde mental.
Uma escala breve pode ser utilizada para acompanhar a percepção do paciente, desde que não substitua instrumentos clínicos validados nem a avaliação em saúde mental.
A pergunta não deve ser apenas:
“Você está menos deprimido?”
Também é importante perguntar:
“Você consegue pensar, compreender e realizar suas atividades com menos esforço?”
Conclusão
O estudo piloto randomizado publicado em 2024 encontrou um benefício significativo da eletroacupuntura sobre as queixas cognitivas subjetivas de pacientes com transtorno depressivo maior.
Depois de dez semanas, os participantes que receberam eletroacupuntura associada ao tratamento convencional relataram menos dificuldades relacionadas à:
- concentração;
- compreensão;
- aprendizagem;
- organização do pensamento;
- comunicação.
Os testes objetivos de memória e função executiva apresentaram tendências de melhora, mas não demonstraram diferenças estatisticamente significativas entre os grupos. O mesmo ocorreu com a gravidade global da depressão e as demais dimensões de qualidade de vida.
A conclusão mais adequada é:
a eletroacupuntura demonstrou potencial como intervenção complementar para reduzir a percepção de prejuízo cognitivo em pessoas com depressão leve ou moderada.
Esse é um resultado clinicamente relevante, porque a recuperação da depressão não depende apenas da melhora do humor. Para retomar a vida cotidiana, o paciente também precisa recuperar sua capacidade de prestar atenção, compreender, planejar, aprender e se comunicar.
O estudo não encerra a questão, mas abre uma linha promissora de investigação:
a eletroacupuntura pode contribuir não apenas para aquilo que o paciente sente emocionalmente, mas também para a maneira como ele percebe sua própria capacidade de pensar e funcionar.
Referência principal
Boontra Y, Thanetnit C, Phanasathit M. Effects of electroacupuncture on cognitive symptoms in major depressive disorder: a pilot study and randomized controlled trial. F1000Research. 2024;13:479. DOI: 10.12688/f1000research.146897.4.

