Acupuntura no refluxo laringofaríngeo: o que a revisão sistemática de 2023 realmente mostrou?

Sete ensaios clínicos encontraram benefícios quando a acupuntura foi acrescentada ao tratamento convencional, mas a qualidade da evidência ainda é baixa

Uma revisão sistemática com meta-análise publicada em junho de 2023 avaliou a efetividade da acupuntura no tratamento do refluxo laringofaríngeo (RLF). Após triagem de 321 estudos, sete ensaios clínicos preencheram os critérios de inclusão. Todos compararam acupuntura associada ao tratamento convencional versus tratamento convencional isolado. Os resultados indicaram benefício adicional da acupuntura, embora os autores destaquem a necessidade de estudos com maior rigor metodológico. Neste artigo, organizamos os principais achados e discutimos suas implicações clínicas.

Pigarro frequente, rouquidão, tosse persistente, sensação de muco ou de algo parado na garganta podem estar relacionados ao refluxo laringofaríngeo. Entretanto, esses sintomas não são exclusivos do refluxo e podem aparecer em diferentes condições respiratórias, alérgicas, inflamatórias, vocais e funcionais.

Essa falta de especificidade torna o diagnóstico difícil e ajuda a explicar por que muitos pacientes passam por sucessivos tratamentos sem alcançar uma melhora satisfatória.

Em 2023, pesquisadores coreanos publicaram uma revisão sistemática com meta-análise para investigar a efetividade da acupuntura no refluxo laringofaríngeo. Sete ensaios clínicos randomizados foram incluídos.

Os resultados favoreceram os grupos que receberam acupuntura associada ao tratamento convencional. Entretanto, nenhum dos estudos avaliou a acupuntura isoladamente, nenhum utilizou acupuntura simulada como controle e a confiabilidade global da evidência foi considerada baixa pelo sistema GRADE.

Portanto, a revisão apresenta resultados promissores, mas não demonstra de forma definitiva que a acupuntura, por si só, seja eficaz para o refluxo laringofaríngeo.

O que é refluxo laringofaríngeo?

O refluxo laringofaríngeo ocorre quando conteúdos provenientes do estômago retornam pelo esôfago e alcançam regiões superiores, como a faringe e a laringe.

O material refluído pode conter ácido, pepsina, sais biliares e outras substâncias capazes de irritar a mucosa das vias aerodigestivas superiores.

Embora seja frequentemente relacionado à doença do refluxo gastroesofágico, o refluxo laringofaríngeo pode apresentar manifestações diferentes.

Na doença do refluxo gastroesofágico, são frequentes sintomas como:

  • azia;
  • queimação retroesternal;
  • regurgitação;
  • desconforto após as refeições.

No refluxo laringofaríngeo, o paciente pode não apresentar azia e procurar atendimento principalmente por alterações na garganta ou na voz.

Entre as manifestações frequentemente associadas estão:

  • pigarro;
  • rouquidão;
  • tosse crônica;
  • sensação de muco na garganta;
  • sensação de globo ou “bolo” na garganta;
  • fadiga vocal;
  • ardência ou irritação;
  • dificuldade para engolir;
  • episódios de engasgo;
  • retorno de conteúdo ou gosto amargo na boca.

O problema é que esses sintomas também podem aparecer em alergias, rinossinusites, alterações vocais, doenças respiratórias, hipersensibilidade laríngea, uso excessivo da voz e outras condições. Por isso, os sintomas isolados não confirmam o diagnóstico.

Por que o diagnóstico é tão complexo?

Durante muito tempo, pacientes com sintomas de garganta foram diagnosticados com refluxo principalmente a partir da história clínica e da laringoscopia.

Alterações como vermelhidão, edema e secreção na laringe eram interpretadas como sinais de exposição ao refluxo.

Entretanto, essas alterações não são específicas. Elas também podem ser encontradas em pessoas sem refluxo e variar de acordo com o observador, a técnica do exame e outras condições locais.

Da mesma forma, uma melhora após o uso de medicamentos que reduzem a acidez não confirma necessariamente que o refluxo fosse a causa dos sintomas.

A investigação atual pode envolver, conforme o caso:

  • avaliação otorrinolaringológica;
  • avaliação gastroenterológica;
  • laringoscopia;
  • endoscopia digestiva alta;
  • monitorização prolongada do pH;
  • impedanciometria associada à monitorização de pH;
  • avaliação da motilidade esofágica;
  • investigação de alergias;
  • avaliação da voz;
  • análise dos hábitos alimentares e comportamentais.

Revisões contemporâneas recomendam que pacientes com sintomas exclusivamente laríngeos ou extraesofágicos sejam avaliados com cautela antes de receber o diagnóstico de refluxo ou tratamentos empíricos prolongados.

Como o refluxo laringofaríngeo costuma ser tratado?

O tratamento depende da avaliação clínica e pode incluir:

  • mudanças nos horários das refeições;
  • redução de refeições volumosas ou muito próximas do sono;
  • ajustes alimentares;
  • redução do consumo de álcool;
  • controle do tabagismo;
  • medidas para redução de peso, quando indicadas;
  • alginatos;
  • medicamentos que reduzem a produção de ácido;
  • tratamento de alterações vocais ou respiratórias associadas;
  • investigação e manejo de fatores comportamentais.

Os inibidores da bomba de prótons são frequentemente utilizados, mas a resposta aos medicamentos é variável, especialmente quando o paciente apresenta apenas sintomas de garganta e não possui refluxo objetivamente demonstrado.

Isso não significa que esses medicamentos sejam ineficazes ou inadequados. Significa que não são uma solução universal e que o diagnóstico precisa ser reconsiderado quando não há resposta.

A possibilidade de sintomas persistentes, resposta incompleta e dificuldade diagnóstica ajuda a explicar o interesse por intervenções complementares, como a acupuntura.

Qual foi o objetivo da revisão?

A revisão sistemática de 2023 teve como objetivo avaliar a efetividade da acupuntura para o refluxo laringofaríngeo.

Os pesquisadores realizaram buscas em dez bases de dados eletrônicas e dois revisores independentes participaram da seleção dos estudos.

Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, sete ensaios clínicos randomizados foram analisados.

Os principais desfechos avaliados foram:

  • Reflux Symptom Index;
  • Reflux Finding Score.

Também foram analisadas medidas secundárias, como:

  • pressão do esfíncter esofágico inferior;
  • pressão do esfíncter esofágico superior;
  • outros indicadores relacionados à função esofágica e aos sintomas.

Todos os ensaios incluídos foram realizados na China e publicados entre 2017 e 2022.

O que é o Reflux Symptom Index?

O Reflux Symptom Index, ou RSI, é um questionário respondido pelo próprio paciente.

Ele avalia a intensidade de sintomas como:

  • rouquidão;
  • pigarro;
  • excesso de secreção;
  • dificuldade para engolir;
  • tosse após as refeições ou ao deitar;
  • episódios de engasgo;
  • tosse persistente;
  • sensação de algo parado na garganta;
  • azia, dor no peito ou retorno do conteúdo gástrico.

Uma redução do RSI indica que o paciente percebeu melhora dos sintomas.

Trata-se de um desfecho clinicamente importante, porque mede aquilo que interfere diretamente na vida do paciente.

Entretanto, é uma medida subjetiva. O resultado pode ser influenciado por:

  • expectativas sobre o tratamento;
  • atenção recebida;
  • experiência terapêutica;
  • percepção individual;
  • variações naturais dos sintomas;
  • mudanças alimentares ou comportamentais realizadas durante o estudo.

Por essa razão, o RSI deve ser interpretado junto a outros resultados e não como uma comprovação isolada de que os episódios de refluxo diminuíram.

O que é o Reflux Finding Score?

O Reflux Finding Score, ou RFS, é uma escala baseada nas alterações observadas durante o exame da laringe.

Ela considera aspectos como:

  • edema;
  • vermelhidão;
  • alterações nas pregas vocais;
  • espessamento da região posterior da laringe;
  • presença de secreção;
  • alterações na região subglótica.

Apesar de ser baseado em um exame, o RFS não é completamente objetivo.

A interpretação pode variar entre profissionais, e alguns dos achados atribuídos ao refluxo também podem aparecer em pessoas assintomáticas ou em outras condições inflamatórias.

Portanto, uma redução do RFS pode indicar melhora na aparência da laringe, mas não prova, isoladamente, que a frequência ou a composição do refluxo se modificaram.

O que os estudos realmente compararam?

Este é o ponto mais importante para compreender os resultados.

Os sete ensaios compararam:

acupuntura associada ao tratamento convencional

com

tratamento convencional sem acupuntura.

O tratamento convencional variou entre os estudos e podia incluir medicamentos, dieta e orientações comportamentais.

Nenhum ensaio comparou:

  • acupuntura isolada com ausência de tratamento;
  • acupuntura real com acupuntura simulada;
  • acupuntura real com procedimento placebo;
  • diferentes estratégias de acupuntura entre si.

Portanto, a revisão não respondeu diretamente à pergunta:

A acupuntura isolada é eficaz para o refluxo laringofaríngeo?

A pergunta respondida foi:

Acrescentar acupuntura ao tratamento convencional produz resultados melhores do que utilizar apenas o tratamento convencional?

Os resultados favoreceram a inclusão da acupuntura.

Essa diferença parece pequena, mas modifica completamente a conclusão.

Por que a ausência de um grupo sham importa?

Quando o grupo experimental recebe acupuntura e o grupo de controle recebe apenas medicamentos ou orientações, o grupo de acupuntura também recebe:

  • mais tempo de atendimento;
  • contato corporal;
  • atenção do profissional;
  • expectativa de receber uma intervenção adicional;
  • repetição de consultas;
  • um ritual terapêutico mais complexo.

Esses fatores podem influenciar principalmente os desfechos subjetivos.

Isso não significa que a melhora seja “apenas placebo”.

Significa que, sem um grupo com acupuntura simulada ou outro controle semelhante, não é possível separar com precisão:

  • o efeito específico do agulhamento;
  • o efeito da interação terapêutica;
  • as expectativas;
  • as mudanças comportamentais;
  • o efeito combinado dos tratamentos.

O resultado demonstra o efeito do conjunto oferecido ao paciente, e não necessariamente o efeito isolado de cada componente.

Como foram realizados os tratamentos?

Os protocolos variaram quanto à duração e à frequência.

A distribuição descrita na revisão foi:

Frequência Duração do tratamento Número de estudos
Três sessões por semana Quatro semanas Quatro estudos
Três sessões por semana Oito semanas Dois estudos
Cinco sessões por semana Quatro semanas Um estudo

Na maioria dos ensaios, as agulhas permaneceram inseridas por aproximadamente 30 minutos.

Os estudos relataram manipulação das agulhas para obtenção do De Qi ou novas manipulações em intervalos durante a retenção.

Portanto, a intervenção não consistiu apenas em inserir as agulhas e deixá-las imóveis.

A técnica de estimulação fazia parte do tratamento.

Esse ponto é relevante porque a dose da acupuntura não depende apenas de:

  • quais pontos foram escolhidos;
  • quantas agulhas foram utilizadas;
  • quanto tempo permaneceram inseridas.

Também depende de:

  • profundidade;
  • ângulo;
  • direção;
  • manipulação;
  • intensidade do estímulo;
  • frequência das sessões;
  • resposta do paciente.

A descrição desses aspectos não foi igualmente completa em todos os estudos, dificultando a reprodução exata dos protocolos.

Quais pontos foram mais utilizados?

Os pontos mais frequentes foram:

  • VC22 — Tiantu;
  • E36 — Zusanli;
  • F3 — Taichong.

Outros pontos também apareceram, mas esses três se destacaram pela frequência de utilização.

VC22 — Tiantu

VC22 está localizado na região anterior do pescoço e apresenta relação tradicional com:

  • garganta;
  • tosse;
  • dificuldade respiratória;
  • sensação de obstrução;
  • alterações da descida do Qi.

Sua inclusão possui uma lógica local e funcional.

Localmente, atua na região onde muitos sintomas se manifestam.

Dentro da Medicina Chinesa, é utilizado para favorecer a descida do Qi, beneficiar a garganta e transformar Fleuma.

É um ponto que exige conhecimento anatômico e técnico. A frequência com que aparece em estudos não significa que deva ser agulhado de maneira padronizada ou profunda por profissionais sem treinamento adequado.

E36 — Zusanli

E36 é um ponto central na regulação do Baço e do Estômago.

Entre suas funções tradicionais estão:

  • harmonizar o Estômago;
  • fortalecer o Baço;
  • regular o Qi;
  • favorecer a descida;
  • tratar náusea, vômito e alterações digestivas;
  • fortalecer a capacidade funcional do organismo.

Sua utilização é coerente com a compreensão de que o refluxo envolve uma alteração do movimento descendente do Estômago.

F3 — Taichong

F3 é utilizado para promover o livre fluxo do Qi do Fígado.

Sua presença nos protocolos sugere atenção à relação entre o Fígado e o Estômago.

Quando o Qi do Fígado fica estagnado, pode interferir no Aquecedor Médio, comprometer a descida do Estômago e favorecer:

  • distensão;
  • eructação;
  • náusea;
  • refluxo;
  • piora associada ao estresse;
  • sensação de bloqueio na garganta.

A utilização de F3 indica que parte dos protocolos não tratou o refluxo apenas como uma alteração local da laringe.

Os pontos mais frequentes formam um protocolo?

Não.

A revisão mostra quais pontos foram utilizados com maior frequência, mas não identifica quais deles foram responsáveis pelos resultados.

Os estudos avaliaram combinações.

Quando um paciente melhora após receber VC22, E36, F3 e outros pontos, não é possível afirmar que:

  • VC22 produziu a melhora da garganta;
  • E36 corrigiu o refluxo;
  • F3 foi o responsável pela resposta;
  • os três pontos formam uma fórmula universal.

Também não sabemos se a mesma resposta seria obtida:

  • retirando um dos pontos;
  • modificando a técnica;
  • tratando apenas os pontos distais;
  • utilizando um protocolo individualizado;
  • acrescentando outros pontos conforme o padrão.

A frequência de uso pode ajudar a compreender o raciocínio dos pesquisadores. Ela não substitui o raciocínio clínico.

Houve diferenciação de padrões?

Apenas um dos sete estudos descreveu claramente a diferenciação de padrões da Medicina Chinesa.

Nos demais, foram utilizados protocolos predominantemente padronizados.

A padronização facilita a pesquisa porque todos os participantes recebem uma intervenção semelhante.

Entretanto, ela representa apenas parcialmente a prática clínica da Medicina Chinesa.

Dois pacientes com pigarro, rouquidão e refluxo podem apresentar mecanismos diferentes.

Entre as possibilidades estão:

  • Qi do Estômago em contracorrente;
  • desarmonia entre Fígado e Estômago;
  • deficiência do Qi do Baço;
  • Umidade e Fleuma;
  • Calor no Estômago;
  • Fogo do Fígado afetando o Estômago;
  • deficiência do Yin do Estômago;
  • Frio no Aquecedor Médio;
  • combinação entre deficiência e excesso.

Essas apresentações não exigem necessariamente os mesmos pontos nem a mesma intensidade de tratamento.

Como a Medicina Chinesa compreende o refluxo?

O movimento fisiológico do Qi do Estômago é descendente.

O Estômago recebe os alimentos e inicia seu encaminhamento para as etapas seguintes da transformação e do transporte.

Quando o Qi do Estômago deixa de descer e se move para cima, podem aparecer:

  • eructação;
  • soluço;
  • náusea;
  • vômito;
  • regurgitação;
  • refluxo;
  • sensação de conteúdo subindo.

No refluxo laringofaríngeo, essa contracorrente alcança regiões superiores e pode se manifestar na garganta.

Entretanto, identificar “Qi do Estômago em contracorrente” ainda não completa o diagnóstico.

A contracorrente é o movimento alterado. O profissional precisa investigar por que esse movimento surgiu.

Fígado invadindo o Estômago

Quando o Qi do Fígado não circula adequadamente, pode interferir na função do Estômago.

O paciente pode apresentar:

  • refluxo relacionado ao estresse;
  • piora com irritabilidade;
  • distensão abdominal;
  • eructações;
  • sensação de aperto na garganta;
  • dor ou desconforto nas regiões costais;
  • alternância dos sintomas conforme o estado emocional.

Nesse contexto, apenas fortalecer o Estômago pode ser insuficiente. É necessário promover o livre fluxo do Qi e restabelecer a relação entre Fígado e Estômago.

A presença frequente de F3 nos estudos é coerente com esse mecanismo, mas não significa que todos os pacientes com refluxo apresentem estagnação do Fígado.

Deficiência do Baço e formação de mucosidade

Quando o Baço não transforma e transporta adequadamente, líquidos podem se acumular e formar umidade e mucosidade.

O paciente pode apresentar:

  • sensação de muco;
  • pigarro;
  • peso corporal;
  • cansaço;
  • distensão após as refeições;
  • fezes amolecidas;
  • falta de apetite;
  • língua aumentada ou marcada;
  • sensação de obstrução na garganta.

Nesse caso, o refluxo não envolve apenas a subida do Qi do Estômago. Também existe uma dificuldade na transformação dos líquidos e na manutenção do movimento do Aquecedor Médio.

E36 pode fazer parte do tratamento, mas a combinação precisa considerar a deficiência e a presença de mucosidade.

Calor no Estômago

Quando existe Calor, o movimento ascendente pode ser mais intenso.

Podem aparecer:

  • azia;
  • queimação;
  • sede;
  • fome excessiva;
  • gosto amargo ou ácido;
  • mau hálito;
  • irritação na garganta;
  • gengivas inflamadas;
  • constipação;
  • língua avermelhada.

Nesse contexto, simplesmente tonificar pode agravar o quadro.

O tratamento precisa reduzir o Calor, harmonizar o Estômago e restabelecer a descida.

Deficiência do Yin do Estômago

Em quadros mais crônicos, a mucosa e os líquidos podem estar comprometidos.

O paciente pode apresentar:

  • garganta seca;
  • rouquidão;
  • desconforto persistente;
  • fome com pouca capacidade de comer;
  • sensação de calor no final do dia;
  • boca seca;
  • língua avermelhada com pouca saburra.

Nesse caso, um protocolo voltado apenas para movimentar o Qi pode ser insuficiente ou excessivo.

É necessário nutrir o Yin, gerar líquidos e harmonizar o Estômago.

O que a meta-análise encontrou?

A combinação de acupuntura e tratamento convencional apresentou resultados estatisticamente superiores ao tratamento convencional isolado.

Foram observadas diferenças favoráveis em desfechos como:

  • intensidade dos sintomas medida pelo RSI;
  • alterações laríngeas avaliadas pelo RFS;
  • algumas medidas relacionadas aos esfíncteres esofágicos.

Os autores concluíram que a acupuntura associada ao tratamento convencional pode contribuir para reduzir os sintomas do refluxo laringofaríngeo.

Entretanto, o sistema GRADE classificou a confiabilidade da meta-análise como baixa.

Isso significa que novos estudos, metodologicamente mais rigorosos, podem modificar de maneira importante a estimativa atual do efeito.

O que significa “resultado estatisticamente significativo”?

Uma diferença estatisticamente significativa indica que os resultados encontrados dificilmente seriam explicados apenas pelo acaso, considerando o modelo estatístico utilizado.

Isso não significa automaticamente que a diferença:

  • seja grande;
  • seja perceptível para todos os pacientes;
  • represente cura;
  • se mantenha depois do tratamento;
  • seja causada exclusivamente pela acupuntura;
  • seja reproduzível em outros contextos.

A relevância clínica precisa considerar:

  • magnitude da mudança;
  • proporção de pacientes que melhoraram;
  • manutenção do benefício;
  • impacto na qualidade de vida;
  • redução de medicamentos;
  • ocorrência de efeitos adversos;
  • retorno dos sintomas.

A revisão oferece indícios favoráveis, mas não resolve todas essas questões.

O que significam as alterações dos esfíncteres?

Alguns ensaios avaliaram a pressão do esfíncter esofágico inferior e do esfíncter esofágico superior.

O esfíncter esofágico inferior participa da contenção do conteúdo gástrico, enquanto o superior contribui para impedir que o material avance para regiões mais altas.

Alterações favoráveis nessas pressões levantam a hipótese de que a acupuntura possa influenciar:

  • motilidade esofágica;
  • regulação autonômica;
  • coordenação neuromuscular;
  • função dos esfíncteres.

Entretanto, essas medidas foram avaliadas em poucos estudos e com amostras limitadas.

Não é possível afirmar que a acupuntura normalize a função esofágica nem que esse seja o principal mecanismo responsável pela melhora.

A acupuntura reduziu o refluxo ou apenas os sintomas?

A revisão não responde completamente a essa pergunta.

Uma redução do RSI indica melhora dos sintomas relatados.

Uma redução do RFS indica mudança nos achados observados na laringe.

Alterações nas pressões esofágicas sugerem uma possível modificação funcional.

Entretanto, a maioria dos estudos não utilizou métodos capazes de quantificar diretamente:

  • número de episódios de refluxo;
  • duração dos episódios;
  • composição do material refluído;
  • acidez;
  • presença de refluxo não ácido;
  • altura alcançada pelo conteúdo.

Sem monitorização adequada, não é possível determinar se a acupuntura:

  • diminuiu os episódios de refluxo;
  • reduziu a sensibilidade da garganta;
  • melhorou a função motora;
  • reduziu a inflamação;
  • alterou a percepção dos sintomas;
  • produziu uma combinação desses efeitos.

A melhora do paciente é clinicamente relevante, mas o mecanismo permanece incerto.

Quais foram as principais limitações?

Poucos estudos

A revisão incluiu apenas sete ensaios.

Esse número é insuficiente para produzir uma conclusão robusta e estável.

Todos os estudos foram realizados na China

Os resultados podem não ser diretamente generalizáveis para populações com diferentes:

  • hábitos alimentares;
  • expectativas;
  • sistemas de saúde;
  • critérios diagnósticos;
  • tratamentos convencionais;
  • experiências anteriores com acupuntura.

Ausência de acupuntura simulada

Sem um grupo sham, não é possível separar adequadamente o efeito específico do agulhamento dos efeitos contextuais da intervenção.

Acupuntura sempre associada a outro tratamento

A revisão não demonstrou a eficácia da acupuntura isolada.

O resultado pertence à combinação.

Protocolos convencionais diferentes

Os medicamentos, as orientações e a duração do tratamento não foram idênticos entre os estudos.

Diagnóstico heterogêneo

O refluxo laringofaríngeo é difícil de diagnosticar e os critérios utilizados pelos estudos não foram perfeitamente uniformes.

Pouca diferenciação de padrões

A maior parte dos estudos empregou pontos padronizados, com pouca individualização segundo a Medicina Chinesa.

Risco de viés

Os autores identificaram limitações relacionadas à qualidade metodológica dos estudos e classificaram a confiabilidade global como baixa.

Acompanhamento limitado

Os tratamentos duraram predominantemente entre quatro e oito semanas.

Ainda não sabemos com segurança:

  • se o efeito se manteve;
  • se houve recidiva;
  • se foram necessárias sessões de manutenção;
  • se os medicamentos puderam ser reduzidos;
  • se o curso da condição foi modificado.

O que a revisão não demonstrou?

Os resultados não permitem afirmar que:

  • a acupuntura cura o refluxo laringofaríngeo;
  • a acupuntura substitui a avaliação médica;
  • a acupuntura isolada é eficaz;
  • a acupuntura é superior aos medicamentos;
  • VC22, E36 e F3 formam um protocolo universal;
  • todos os pacientes com pigarro ou rouquidão possuem refluxo;
  • a melhora dos sintomas representa eliminação do refluxo;
  • quatro semanas de tratamento são suficientes;
  • os resultados serão iguais fora da China;
  • o efeito observado foi completamente específico das agulhas.

Essas conclusões ultrapassariam a evidência disponível.

O que muda na prática clínica?

A revisão oferece sustentação preliminar para considerar a acupuntura como recurso complementar no tratamento do refluxo laringofaríngeo.

Entretanto, o profissional não deve começar escolhendo pontos.

A primeira etapa é compreender o quadro e verificar se o paciente foi adequadamente avaliado.

A segunda é identificar o mecanismo funcional segundo a Medicina Chinesa.

A terceira é definir uma estratégia e estabelecer como a resposta será medida.

Perguntas importantes incluem:

  • Existe azia?
  • Há regurgitação?
  • Os sintomas pioram depois das refeições?
  • Há relação com refeições noturnas?
  • O quadro piora em períodos de estresse?
  • Existe sensação de muco?
  • Há distensão abdominal?
  • O paciente apresenta náusea ou eructação?
  • Há sinais de Calor?
  • Existem sinais de deficiência do Baço?
  • Há secura e deficiência de Yin?
  • Como estão o sono e o intestino?
  • Existem medicamentos ou doenças que possam contribuir para os sintomas?

A seleção dos pontos deve resultar dessa análise.

Sinais que exigem encaminhamento

A acupuntura não deve atrasar a investigação de manifestações potencialmente importantes.

O paciente precisa ser encaminhado ou reavaliado quando apresentar:

  • dificuldade progressiva para engolir;
  • dor ao engolir;
  • perda de peso sem explicação;
  • sangramento;
  • vômitos persistentes;
  • anemia;
  • rouquidão prolongada ou progressiva;
  • massa no pescoço;
  • engasgos frequentes;
  • falta de ar;
  • alteração neurológica;
  • início recente e progressivo em pessoas com fatores de risco.

Essas manifestações não devem ser tratadas apenas como “Qi do Estômago em contracorrente”.

Como acompanhar a evolução?

A resposta não deve ser avaliada apenas pela pergunta “melhorou?”.

É possível registrar:

  • frequência do pigarro;
  • intensidade da rouquidão;
  • número de episódios de tosse;
  • sensação de globo;
  • desconforto ao engolir;
  • regurgitação;
  • sintomas após refeições;
  • sintomas noturnos;
  • impacto sobre a voz;
  • qualidade do sono;
  • RSI, quando apropriado;
  • evolução dos exames e avaliações médicas.

O registro do tratamento também deve incluir:

  • pontos utilizados;
  • lado;
  • profundidade;
  • ângulo;
  • técnica de manipulação;
  • obtenção do De Qi;
  • tempo de retenção;
  • frequência das sessões;
  • modificações realizadas;
  • tratamentos concomitantes;
  • reações adversas;
  • resultado da reavaliação.

Sem esse acompanhamento, o profissional não consegue saber se a estratégia escolhida está produzindo uma mudança relevante.

Como os próximos estudos deveriam ser conduzidos?

Ensaios futuros precisam comparar grupos capazes de responder perguntas diferentes.

Um desenho mais informativo poderia incluir:

  1. tratamento convencional isolado;
  2. tratamento convencional associado à acupuntura real;
  3. tratamento convencional associado à acupuntura simulada;
  4. acupuntura real isolada, quando ética e clinicamente possível.

Também seriam necessários:

  • critérios diagnósticos mais rigorosos;
  • monitorização objetiva do refluxo;
  • avaliadores cegos;
  • ocultação adequada da alocação;
  • registro prévio dos protocolos;
  • descrição completa segundo o STRICTA;
  • acompanhamento após o tratamento;
  • registro de recidivas;
  • avaliação de eventos adversos;
  • estudos realizados em outros países;
  • comparação entre protocolos fixos e individualizados;
  • avaliação da relevância clínica, e não apenas estatística.

Esses estudos ajudariam a responder:

  • quais pacientes se beneficiam;
  • qual é o efeito específico da acupuntura;
  • quais pontos e técnicas são mais adequados;
  • quanto tempo o efeito dura;
  • se existe influência sobre a função esofágica;
  • se a individualização melhora os resultados.

Conclusão

A revisão sistemática de 2023 encontrou resultados favoráveis à inclusão da acupuntura no tratamento do refluxo laringofaríngeo.

Nos sete ensaios analisados, os grupos que receberam acupuntura associada ao tratamento convencional apresentaram resultados superiores aos grupos submetidos apenas ao tratamento convencional.

Isso indica que a acupuntura pode oferecer um benefício adicional.

Entretanto, os estudos não avaliaram a acupuntura isoladamente, não utilizaram controles simulados adequados e apresentaram limitações metodológicas. Todos foram realizados na China e a confiabilidade global da evidência foi classificada como baixa.

Portanto, a conclusão mais adequada é:

a acupuntura pode ser considerada uma intervenção complementar promissora para o refluxo laringofaríngeo, mas ainda não há evidência suficiente para afirmar sua eficácia isolada nem para estabelecer um protocolo universal.

Na prática clínica, os pontos mais utilizados na revisão — VC22, E36 e F3 — ajudam a compreender o raciocínio dos estudos, mas não substituem a diferenciação de padrões.

O tratamento precisa partir da pergunta fundamental:

por que o Qi do Estômago deixou de descer?

Somente depois de identificar o mecanismo é possível escolher os pontos, definir a técnica e reavaliar se o movimento fisiológico começou a ser restabelecido.

Referência do estudo

Oh J, Yang J, Yang J, Kang M, Kim S, Lee M, Lim J. Effectiveness of Acupuncture for Laryngopharyngeal Reflux Disease: A Systematic Review and Meta-Analysis. Journal of Acupuncture Research. 2023;40(3):188–200. DOI: 10.13045/jar.2023.00087.

É professora, pesquisadora e profissional da Medicina Chinesa, com mais de 20 anos de experiência na formação de profissionais. É mestranda em Engenharia Biomédica pela Universidade Federal do ABC (UFABC), onde desenvolve pesquisa na área de laseracupuntura e fotobiomodulação. Possui formação em docência, epistemologia, didática e tecnologias aplicadas ao ensino. Seu trabalho integra a Medicina Chinesa, a fotobiomodulação e a ciência para desenvolver o raciocínio clínico e formar profissionais capazes de tomar decisões seguras, críticas e fundamentadas em evidências. (@anarnunes.oficial)

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