Acupuntura na fibromialgia: o que mostrou o estudo italiano sobre a dor em diferentes regiões do corpo?
Após oito sessões semanais, pacientes com fibromialgia grave apresentaram redução da dor, da fadiga e dos distúrbios do sono
Um estudo italiano publicado em 2021 avaliou os efeitos da acupuntura no alívio da dor em pacientes com fibromialgia severa, analisando os resultados de forma inédita: por regiões específicas do corpo. Após oito sessões semanais, todos os participantes apresentaram melhora significativa da dor, fadiga e sono. Os dados reforçam a eficácia clínica da acupuntura e contribuem para uma compreensão mais refinada de seus efeitos em diferentes áreas corporais.
Índice
A fibromialgia é uma condição complexa, marcada por dor crônica generalizada, fadiga, sono não reparador e diferentes alterações cognitivas e emocionais. Embora a dor seja considerada generalizada, ela não se manifesta necessariamente com a mesma intensidade em todas as regiões do corpo.
Algumas pessoas apresentam maior comprometimento cervical e lombar. Outras relatam dor intensa nos braços, pernas, tórax ou abdômen. A localização e a intensidade também podem variar ao longo do tempo.
Grande parte dos estudos sobre acupuntura e fibromialgia avalia a dor de forma global, utilizando uma única escala para representar o corpo inteiro. Em 2021, pesquisadores italianos propuseram uma análise diferente: observar se um protocolo padronizado de acupuntura produziria o mesmo grau de melhora nas diferentes regiões corporais.
Depois de oito sessões semanais, a intensidade média da dor diminuiu em todas as 16 regiões avaliadas. A redução foi estatisticamente significativa em 12 delas, com resultados particularmente favoráveis no abdômen e nos antebraços.
Os participantes também apresentaram melhora da fadiga e da qualidade do sono.
O estudo não possuía grupo de controle, mas oferece uma contribuição clínica interessante ao mostrar que a resposta à acupuntura pode não ser homogênea em todas as áreas do corpo.
O que é a fibromialgia?
A fibromialgia é uma condição crônica caracterizada principalmente por dor generalizada, acompanhada com frequência por:
- fadiga;
- sono não reparador;
- dificuldade de concentração;
- alterações de memória;
- hipersensibilidade a estímulos;
- rigidez;
- cefaleia;
- sintomas digestivos;
- ansiedade e alterações do humor.
A dor não é explicada apenas por lesões nos músculos ou nas articulações. Alterações no processamento dos estímulos pelo sistema nervoso participam da amplificação da experiência dolorosa.
Por esse motivo, a intensidade da dor pode ser desproporcional à presença de alterações estruturais identificadas em exames. Isso não significa que a dor seja imaginária. Significa que o sistema responsável por receber, modular e interpretar os estímulos apresenta funcionamento alterado.
A fibromialgia também não é considerada uma doença inflamatória ou autoimune clássica. O tratamento costuma exigir uma abordagem integrada, que pode envolver educação, atividade física progressiva, melhora do sono, intervenções psicológicas, medicamentos e diferentes estratégias não farmacológicas.
Por que analisar a dor por região?
Avaliar apenas uma nota global de dor pode esconder diferenças importantes.
Imagine que uma paciente comece o tratamento com:
- dor cervical intensa;
- dor moderada nos braços;
- dor leve no abdômen;
- dor importante nas pernas.
Depois de algumas sessões, a dor abdominal e a dor nos braços podem melhorar significativamente, enquanto a região cervical permanece praticamente inalterada.
Caso o profissional pergunte apenas pela dor global, poderá concluir que houve uma resposta parcial, sem saber onde o tratamento funcionou melhor e quais áreas ainda exigem atenção.
A análise regional permite observar:
- quais regiões responderam mais;
- quais permaneceram dolorosas;
- se o tratamento sistêmico foi suficiente;
- se será necessário incluir pontos locais ou estratégias complementares;
- como o padrão de dor se modifica ao longo das sessões.
Foi justamente essa diferença regional que o estudo italiano procurou investigar.
Qual foi o objetivo do estudo?
O objetivo principal foi avaliar as mudanças da dor em áreas corporais específicas depois de um ciclo padronizado de acupuntura manual.
Como objetivos secundários, os pesquisadores analisaram mudanças em:
- fadiga;
- qualidade do sono.
Os dados pertenciam a um estudo pragmático anterior conduzido pelo mesmo grupo de pesquisa. A primeira análise havia avaliado o impacto global da acupuntura sobre a gravidade da fibromialgia, as características neuropáticas da dor e a catastrofização.
O artigo de 2021 aprofundou esses resultados, concentrando-se na distribuição corporal da dor.
O que significa um estudo pragmático?
Um estudo pragmático procura observar como uma intervenção se comporta em condições mais próximas da prática clínica.
Nesse caso, os pacientes:
- possuíam fibromialgia grave;
- apresentavam longa duração da doença;
- continuavam utilizando seus tratamentos medicamentosos;
- receberam um protocolo semelhante ao que poderia ser utilizado em um serviço clínico;
- foram acompanhados em um centro especializado em reumatologia.
O objetivo não era estudar um mecanismo isolado em condições laboratoriais extremamente controladas, mas verificar como os pacientes evoluíam após a inclusão da acupuntura em seu tratamento.
Essa característica aproxima os resultados da realidade clínica.
Ao mesmo tempo, o estudo foi aberto e não controlado. Todos sabiam que estavam recebendo acupuntura e não existia outro grupo para comparação.
Portanto, ele mostra a evolução dos participantes durante o tratamento, mas não permite determinar quanto da mudança foi produzido especificamente pelas agulhas.
Quem participou?
Foram recrutados consecutivamente pacientes adultos com fibromialgia diagnosticada segundo os critérios do American College of Rheumatology de 2010.
A amostra apresentava elevada gravidade da doença e resposta insuficiente ao tratamento farmacológico. Para caracterizar essa condição, os pesquisadores utilizaram critérios relacionados ao impacto da fibromialgia e à intensidade dos sintomas somáticos, apesar do tratamento medicamentoso considerado adequado.
Pessoas que já haviam realizado acupuntura foram excluídas, assim como pacientes com outras doenças dolorosas, neurológicas, inflamatórias, endócrinas ou clínicas capazes de confundir a avaliação dos sintomas.
Inicialmente, 102 pessoas começaram o tratamento.
Ao final:
- 96 concluíram as oito sessões;
- 85 eram mulheres;
- 11 eram homens.
A taxa de conclusão foi de aproximadamente 94%.
A predominância feminina é compatível com a maior frequência do diagnóstico de fibromialgia em mulheres, mas significa que os resultados refletem principalmente essa população.
Como foi realizado o tratamento?
Todos os participantes receberam:
- uma sessão semanal;
- durante oito semanas;
- acupuntura manual;
- o mesmo conjunto de pontos;
- retenção das agulhas por 30 minutos;
- manipulação inicial até a obtenção do De Qi.
As sessões foram conduzidas pelo mesmo acupunturista, o que reduziu a variação técnica entre os atendimentos.
Durante o ciclo de acupuntura, os pacientes continuaram utilizando seus tratamentos habituais. A acupuntura foi acrescentada ao cuidado já existente, e não utilizada como substituta dos medicamentos.
Quais pontos foram utilizados?
O protocolo incluiu:
- F3 — Taichong;
- BP6 — Sanyinjiao;
- E36 — Zusanli;
- IG4 — Hegu;
- VC6 — Qihai;
- VC12 — Zhongwan;
- Yintang — EX-HN3;
- VG20 — Baihui.
Os pontos localizados nos membros foram utilizados bilateralmente. Os pontos da linha média — VC6, VC12, Yintang e VG20 — foram aplicados em suas posições únicas.
O artigo não utilizou pontos locais específicos para cada uma das 16 regiões dolorosas. Todos os pacientes receberam o mesmo tratamento sistêmico, independentemente de apresentarem maior dor no pescoço, nos braços, nas pernas ou no tórax.
Esse detalhe é importante: os resultados regionais foram produzidos por uma combinação geral de pontos, e não pelo agulhamento direto das áreas que melhoraram.
Qual era o princípio terapêutico?
Segundo os autores, o protocolo foi escolhido para:
- movimentar o Qi;
- tonificar Qi e Sangue;
- elevar o Qi;
- acalmar a mente.
A combinação reúne pontos relacionados a diferentes eixos do tratamento.
F3 e IG4
F3 e IG4 formam a combinação conhecida como Quatro Portões.
São utilizados para promover o movimento do Qi e do Sangue, reduzir estagnações e favorecer a circulação pelo corpo.
Em pacientes com dor generalizada, essa associação procura atuar sobre a obstrução sem se limitar a uma região específica.
E36 e BA6
E36 e BA6 fortalecem o Baço e participam da produção de Qi e Sangue.
Também podem ser empregados para:
- sustentar a energia;
- reduzir a fadiga;
- regular o organismo;
- nutrir músculos e membros;
- atuar sobre alterações digestivas.
VC6 e VC12
VC6 fortalece e regula o Qi, enquanto VC12 harmoniza o Aquecedor Médio e fortalece a função do Baço e do Estômago.
Sua associação indica que o protocolo não foi estruturado apenas para controlar a dor. Ele também procurou sustentar a condição geral do paciente e a formação de Qi e Sangue.
Yintang e VG20
Yintang e VG20 atuam sobre o Shen e podem participar de estratégias relacionadas a:
- ansiedade;
- sono;
- agitação mental;
- percepção da dor;
- organização do estado geral.
Na fibromialgia, dor, fadiga, sono e estado emocional estão frequentemente interligados. A combinação utilizada pelos pesquisadores procurou abranger essas diferentes dimensões.
Houve diferenciação de síndromes?
Não.
Todos os pacientes receberam o mesmo protocolo.
O estudo não descreveu:
- inspeção de língua;
- avaliação do pulso;
- diferenciação de padrões;
- inclusão ou retirada de pontos;
- técnicas individualizadas de tonificação ou dispersão;
- tratamento específico de acordo com a localização da dor.
Do ponto de vista da pesquisa, essa padronização permite saber exatamente qual combinação foi utilizada.
Do ponto de vista clínico, ela não representa toda a complexidade do tratamento pela Medicina Chinesa.
Pacientes com fibromialgia podem apresentar diferentes mecanismos, como:
- deficiência de Qi e Sangue;
- deficiência do Baço;
- deficiência do Rim;
- deficiência de Yin;
- deficiência de Yang;
- estagnação do Qi do Fígado;
- Estase de Sangue;
- Umidade e Fleuma;
- desarmonia do Shen;
- combinações entre deficiência e obstrução.
Por isso, o protocolo deve ser entendido como uma estratégia geral investigada pelos autores, e não como uma fórmula universal.
Como a dor foi avaliada?
Os pesquisadores utilizaram o Fibromyalgia Assessment Status — FAS.
Esse instrumento reúne três dimensões relevantes:
- dor distribuída pelo corpo;
- fadiga;
- qualidade do sono.
A dor foi avaliada pela Self-Assessment Pain Scale — SAPS.
Nessa escala, o paciente registra a intensidade da dor em 16 regiões:
- cabeça;
- tórax;
- braço esquerdo;
- antebraço esquerdo;
- abdômen;
- nádega esquerda;
- coxa esquerda;
- perna esquerda;
- pescoço;
- região superior das costas;
- braço direito;
- antebraço direito;
- região lombar;
- nádega direita;
- coxa direita;
- perna direita.
A avaliação foi realizada:
- antes da primeira sessão;
- ao final do ciclo de oito sessões.
A pontuação global média da dor diminuiu de aproximadamente 5,8 para 4,4 pontos.
Quais foram os resultados gerais?
Após oito semanas, o grupo apresentou:
- redução significativa da dor global;
- redução significativa da fadiga;
- melhora significativa da qualidade do sono.
As mudanças em fadiga e sono apresentaram valores de p inferiores a 0,0001.
Esses resultados mostram que a evolução não ficou restrita à intensidade da dor.
Isso é relevante porque a fibromialgia compromete diferentes dimensões da vida do paciente. Uma intervenção que reduz a dor, mas agrava a fadiga ou não modifica o sono, pode ter impacto clínico limitado.
No estudo, as três dimensões avaliadas evoluíram favoravelmente.
Entretanto, o resultado foi observado na média do grupo. Não significa que todos os participantes tenham apresentado a mesma intensidade de melhora ou respondido em todos os desfechos.
A dor melhorou em todas as regiões?
A pontuação média diminuiu nas 16 áreas avaliadas.
Entretanto, a diferença atingiu significância estatística em 12 regiões.
As quatro áreas em que a mudança não atingiu o limite estatístico foram:
- pescoço: p = 0,058;
- tórax: p = 0,059;
- nádega esquerda: p = 0,065;
- coxa direita: p = 0,052.
Todos esses valores ficaram próximos de 0,05, mas, pelo critério estatístico usual, não foram considerados significativos.
Portanto, a formulação correta é:
a média da dor diminuiu nas 16 regiões, com redução estatisticamente significativa em 12 delas.
Não é correto afirmar que todos os pacientes melhoraram em todas as regiões.
Quais áreas apresentaram os melhores resultados?
As maiores mudanças foram observadas:
- no abdômen;
- nos antebraços.
A diferença nessas regiões apresentou p = 0,001.
Outras áreas também apresentaram melhora significativa, incluindo:
- braços;
- pernas;
- cabeça;
- costas;
- região lombar;
- parte das coxas e nádegas.
O estudo demonstra que uma combinação sistêmica de pontos pode produzir alterações em regiões que não foram agulhadas diretamente.
Esse achado é compatível com a lógica da acupuntura, na qual a ação do tratamento não depende apenas da proximidade anatômica entre o ponto e o local doloroso.
Por que o abdômen apresentou uma resposta tão favorável?
Os autores consideraram que a presença de VC6 e VC12 no próprio abdômen poderia ter contribuído para a maior resposta regional.
Essa é uma hipótese plausível.
Embora o protocolo fosse sistêmico, o abdômen foi uma das poucas regiões avaliadas que também recebeu agulhamento local.
Entretanto, o estudo não comparou:
- o protocolo completo;
- o mesmo protocolo sem VC6 e VC12;
- apenas os pontos abdominais;
- pontos simulados no abdômen.
Por isso, não é possível afirmar que VC6 e VC12 tenham sido responsáveis pela maior melhora nessa região.
Também podem ter participado:
- o efeito sistêmico da combinação;
- alterações na percepção da dor;
- melhora dos sintomas digestivos;
- mudanças no estado geral;
- regressão à média;
- variação natural dos sintomas.
O resultado gera uma hipótese clínica importante, mas não identifica isoladamente o mecanismo.
E a melhora nos antebraços?
Os antebraços apresentaram uma das maiores reduções de dor, embora não tenham recebido agulhamento local.
IG4 foi utilizado nas mãos, mas não diretamente nas áreas registradas como antebraço.
Esse resultado pode ser interpretado como indício de uma ação regional ou sistêmica do protocolo. Também pode estar relacionado aos canais que percorrem os membros superiores e à influência de IG4 sobre a circulação do Qi e do Sangue.
Novamente, o estudo não foi desenhado para descobrir qual ponto produziu a melhora.
O achado mais seguro é que os antebraços responderam particularmente bem ao conjunto terapêutico utilizado.
Por que algumas regiões responderam menos?
Pescoço, tórax, nádega esquerda e coxa direita apresentaram as menores mudanças estatísticas.
Isso não significa que a acupuntura não tenha produzido qualquer efeito nessas áreas. As médias também diminuíram, mas a diferença não alcançou significância estatística.
Existem diferentes explicações possíveis:
- maior intensidade inicial da dor;
- menor intensidade inicial, deixando menos espaço para redução;
- características anatômicas da região;
- variação entre os participantes;
- ausência de pontos locais;
- mecanismos dolorosos diferentes;
- assimetrias individuais;
- tamanho da amostra;
- sensibilidade da escala.
Os autores sugerem que reconhecer regiões menos responsivas pode ajudar a personalizar o tratamento.
Na prática, isso significa reavaliar o paciente e considerar se determinadas áreas necessitam de:
- pontos locais;
- pontos adjacentes;
- seleção de canais;
- pontos distais específicos;
- técnicas complementares;
- investigação de outros mecanismos de dor.
O estudo não testou essas adaptações, mas oferece uma base para futuras pesquisas.
O resultado regional prova que alguns pontos são melhores?
Não.
Todos os pacientes receberam a mesma combinação. Não houve comparação entre pontos ou fórmulas.
O estudo não permite concluir que:
- VC6 e VC12 sejam os melhores pontos para dor abdominal;
- IG4 seja responsável pela melhora dos antebraços;
- F3 e BA6 tenham reduzido a dor nas pernas;
- VG20 e Yintang tenham produzido a melhora da cabeça;
- uma região com menor resposta exija obrigatoriamente pontos locais.
Essas relações podem ser clinicamente coerentes, mas não foram isoladas pelo desenho da pesquisa.
O efeito observado pertence ao protocolo completo.
O que significa “eficácia” neste estudo?
Os autores utilizaram a expressão eficácia para descrever as mudanças observadas após o tratamento.
Entretanto, metodologicamente, o estudo demonstra uma melhora temporal associada ao ciclo de acupuntura.
Como não havia grupo de comparação, não é possível separar completamente:
- o efeito específico da acupuntura;
- a expectativa;
- o contato terapêutico;
- a evolução natural;
- alterações nos tratamentos concomitantes;
- regressão à média;
- influência da repetição das avaliações.
Isso não torna os resultados irrelevantes.
Em uma população com fibromialgia grave e resposta insatisfatória aos medicamentos, observar redução da dor, da fadiga e dos problemas de sono após oito sessões é um achado clínico promissor.
A formulação mais equilibrada é:
os pacientes apresentaram melhora significativa durante o ciclo de acupuntura, mas um estudo controlado seria necessário para estimar o efeito específico do tratamento.
O estudo representa a prática clínica da Medicina Chinesa?
Parcialmente.
Ele apresenta características próximas da prática:
- pacientes reais;
- doença grave;
- uso concomitante de medicamentos;
- tratamento conduzido por profissional experiente;
- obtenção do De Qi;
- avaliação de diferentes sintomas;
- oito semanas de acompanhamento.
Por outro lado, utilizou uma fórmula fixa e não realizou diferenciação de síndromes.
A prática clínica costuma combinar:
- tratamento da raiz;
- tratamento da manifestação;
- regulação do Shen;
- seleção de pontos conforme as regiões mais comprometidas;
- reavaliação e ajuste do protocolo.
O estudo investigou principalmente os três primeiros componentes por meio de uma combinação geral.
Ele não testou se a individualização produziria resultados superiores.
É possível utilizar esse protocolo na clínica?
A combinação pode ser utilizada como referência de pesquisa, mas não deve ser aplicada automaticamente.
Antes de selecionar os pontos, é necessário avaliar:
- distribuição da dor;
- intensidade da fadiga;
- qualidade do sono;
- sinais de deficiência;
- presença de Umidade ou Fleuma;
- Estase de Sangue;
- funcionamento do Baço;
- participação do Fígado;
- condição do Rim;
- estado do Shen;
- tolerância às agulhas;
- medicamentos e comorbidades.
Também é importante verificar se existem outras causas para dores regionais específicas.
Uma paciente com fibromialgia pode apresentar, simultaneamente:
- radiculopatia;
- tendinopatia;
- osteoartrite;
- capsulite;
- síndrome do túnel do carpo;
- dor miofascial;
- neuropatia;
- doença inflamatória.
Nem toda dor em uma pessoa com fibromialgia deve ser atribuída automaticamente à fibromialgia.
Como acompanhar a resposta?
A avaliação por regiões utilizada no estudo pode ser incorporada à prática clínica.
O profissional pode registrar, antes e durante o tratamento:
- cabeça;
- pescoço;
- tórax;
- braços;
- antebraços;
- abdômen;
- costas;
- região lombar;
- nádegas;
- coxas;
- pernas.
Para cada região, pode ser utilizada uma escala de 0 a 10.
Também devem ser acompanhados:
- fadiga;
- qualidade do sono;
- despertares noturnos;
- rigidez;
- capacidade de realizar atividades;
- uso de medicamentos de resgate;
- tolerância ao exercício;
- percepção de melhora;
- eventos adversos.
Essa avaliação mostra se a resposta é realmente generalizada ou se determinadas regiões permanecem como focos de maior impacto.
Pontos fortes do estudo
O trabalho apresenta características relevantes:
- incluiu pacientes com alta gravidade;
- avaliou pessoas com resposta insatisfatória ao tratamento medicamentoso;
- apresentou elevada taxa de conclusão;
- utilizou o mesmo acupunturista;
- descreveu o protocolo;
- avaliou dor, fadiga e sono;
- analisou 16 regiões corporais;
- aproximou a pesquisa da realidade clínica;
- identificou diferenças regionais pouco exploradas em outros estudos.
Sua principal contribuição não é demonstrar qual ponto trata cada região.
É mostrar que a melhora global pode esconder respostas corporais diferentes.
Limitações que precisam ser consideradas
O estudo também apresenta limitações:
- não possuía grupo de controle;
- os participantes e avaliadores sabiam que havia tratamento;
- a amostra foi recrutada em um único centro;
- houve predominância de mulheres;
- foi utilizada uma fórmula fixa;
- não houve diferenciação de síndromes;
- a avaliação ocorreu apenas ao final das oito sessões;
- não sabemos quanto tempo os efeitos permaneceram;
- não foram comparadas regiões tratadas localmente e não tratadas;
- não houve análise capaz de identificar quais pontos produziram cada resposta.
Essas limitações não anulam os resultados. Elas definem quais perguntas ainda permanecem abertas.
O que o estudo permite concluir?
O estudo permite afirmar que, após oito sessões semanais de acupuntura:
- a média da dor global diminuiu;
- as 16 regiões apresentaram redução numérica da dor;
- 12 regiões apresentaram redução estatisticamente significativa;
- abdômen e antebraços tiveram as respostas mais favoráveis;
- fadiga e qualidade do sono melhoraram;
- o protocolo foi bem aceito pela maior parte dos participantes.
O que ele não permite concluir?
O estudo não demonstra que:
- 100% dos participantes responderam;
- todos melhoraram em todas as regiões;
- a acupuntura isolada causou toda a mudança;
- o protocolo seja superior a outros tratamentos;
- os oito pontos formem uma fórmula universal;
- o tratamento individualizado seria igual ou pior;
- os pontos abdominais foram responsáveis pela melhora do abdômen;
- o efeito se manteve em longo prazo;
- uma sessão semanal seja a frequência ideal.
Conclusão
O estudo italiano de 2021 encontrou resultados promissores para a acupuntura em pacientes com fibromialgia grave e pouco responsiva ao tratamento medicamentoso.
Depois de oito sessões semanais:
- a dor global diminuiu;
- fadiga e sono melhoraram;
- houve redução da dor nas 16 regiões avaliadas;
- 12 regiões apresentaram mudança estatisticamente significativa;
- abdômen e antebraços tiveram as melhores respostas.
O resultado não significa que todos os participantes tenham melhorado da mesma maneira. Também não permite afirmar que a acupuntura tenha sido a única causa das mudanças, porque não havia grupo de controle.
Ainda assim, o estudo oferece uma contribuição valiosa para o raciocínio clínico.
A dor generalizada não deve ser avaliada como se todo o corpo respondesse de forma uniforme.
Um paciente pode apresentar melhora global e continuar com regiões de dor persistente. Identificar essas diferenças permite ajustar o tratamento, acrescentar estratégias específicas e acompanhar a evolução com maior precisão.
Na fibromialgia, perguntar apenas “quanto está sua dor?” pode ser insuficiente.
Também precisamos perguntar:
onde a dor melhorou — e onde ela ainda permanece?
Referência principal
Di Carlo M, Beci G, Salaffi F. Pain Changes Induced by Acupuncture in Single Body Areas in Fibromyalgia Syndrome: Results from an Open-Label Pragmatic Study. Evidence-Based Complementary and Alternative Medicine. 2021;2021:9991144. DOI: 10.1155/2021/9991144.

