Laseracupuntura no tratamento das cefaleias: o que a evidência realmente mostra?
Revisão sistemática reuniu cinco ensaios clínicos, mas a diversidade dos diagnósticos, protocolos e parâmetros ainda limita as conclusões
Uma revisão sistemática reuniu cinco ensaios clínicos sobre laseracupuntura em pessoas com enxaqueca e cefaleia do tipo tensional. Os resultados são promissores, mas a heterogeneidade dos protocolos e a baixa quantidade de estudos ainda impedem conclusões definitivas.
Índice
A laseracupuntura vem sendo investigada como uma forma não invasiva de estimular pontos de acupuntura em pessoas com cefaleias. Os resultados publicados são promissores, especialmente para redução da intensidade e da duração da dor. No entanto, a quantidade de estudos ainda é pequena e os protocolos utilizados são muito diferentes entre si.
Uma revisão sistemática publicada em 2026 reuniu cinco ensaios clínicos randomizados sobre o uso da laseracupuntura em cefaleias. Os estudos incluíram pacientes com enxaqueca e cefaleia do tipo tensional, adultos e crianças, tratamentos padronizados e individualizados, além de diferentes equipamentos e parâmetros de irradiação.
Essa diversidade impede uma conclusão simples como “a laseracupuntura funciona para cefaleia”. O que os estudos permitem afirmar é mais específico: alguns protocolos produziram resultados superiores ao placebo em determinados grupos de pacientes, mas os achados não foram uniformes e ainda não permitem definir um protocolo clínico ideal.
Qual foi o objetivo da revisão?
A revisão buscou avaliar a efetividade da laseracupuntura no tratamento das cefaleias e comparar os resultados obtidos nos ensaios clínicos randomizados disponíveis.
Foram pesquisadas as bases PubMed, Embase, Web of Science, Scopus e Cochrane Library, considerando estudos publicados até abril de 2025.
Dos 1.861 registros inicialmente identificados, apenas cinco ensaios clínicos atenderam aos critérios de inclusão. Esse número reduzido já demonstra que a base científica específica sobre laseracupuntura e cefaleias permanece limitada.
Quais tipos de cefaleia foram estudados?
Os trabalhos incluíram principalmente:
- cefaleia do tipo tensional;
- cefaleia do tipo tensional crônica;
- enxaqueca;
- crianças com enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional.
Essas condições não devem ser tratadas como uma única doença.
Enxaqueca e cefaleia do tipo tensional apresentam características clínicas, mecanismos fisiopatológicos e respostas terapêuticas diferentes. Além disso, um protocolo destinado à cefaleia tensional associada à sensibilidade pericraniana não pode ser automaticamente transferido para pessoas com enxaqueca.
A reunião desses diagnósticos em uma mesma revisão amplia a visão geral do tema, mas dificulta a determinação de para qual tipo de cefaleia a laseracupuntura apresenta melhores resultados.
Como os estudos foram conduzidos?
De maneira geral, os participantes foram distribuídos entre:
- laseracupuntura ativa;
- laser placebo ou sham, com o aparelho desligado.
Os desfechos avaliados incluíram:
- intensidade da dor;
- duração das crises;
- número de dias com cefaleia;
- frequência das crises;
- impacto funcional;
- qualidade de vida;
- sensibilidade dos músculos pericranianos.
Os estudos utilizaram diferentes períodos de tratamento e acompanhamento. Houve protocolos com apenas três sessões em dias alternados e outros com várias semanas de intervenção.
Essa variação torna inadequado comparar diretamente os resultados e concluir que determinado número de sessões ou determinada dose foi superior.
O que os estudos realmente encontraram?
A maioria dos estudos relatou alguma melhora após a laseracupuntura, mas os resultados não foram uniformes.
Cefaleia do tipo tensional crônica
Um ensaio com 50 participantes comparou laseracupuntura ativa e placebo na cefaleia do tipo tensional crônica.
Foram utilizados bilateralmente os pontos P7, IG4, VB14 e VB20. Cada ponto recebeu aproximadamente 1,3 J durante 43 segundos, em um total de dez sessões realizadas três vezes por semana.
O grupo tratado apresentou redução superior ao placebo na intensidade da dor, na duração das crises e no número de dias com cefaleia. Os efeitos ainda foram observados durante o acompanhamento de três meses.
Apesar dos resultados favoráveis, os próprios autores destacaram que eles deveriam ser confirmados em ensaios maiores e metodologicamente mais rigorosos.
Cefaleia em crianças
Outro ensaio incluiu 43 crianças, com média de aproximadamente 12 anos, que apresentavam enxaqueca ou cefaleia do tipo tensional.
Foram realizadas quatro sessões ao longo de quatro semanas. A escolha dos pontos foi individualizada de acordo com os critérios da Medicina Chinesa.
O grupo que recebeu laser ativo apresentou maior redução no número de dias com cefaleia, na intensidade da dor e na quantidade de horas mensais com sintomas quando comparado ao placebo.
O resultado é relevante, mas precisa ser interpretado com cautela. A amostra era pequena, reunia dois tipos diferentes de cefaleia e utilizava tratamentos individualizados, dificultando a reprodução de um protocolo único.
Estudo com três aplicações
Um pequeno ensaio brasileiro avaliou 14 pessoas com cefaleia do tipo tensional crônica.
O protocolo utilizou laser de 660 nm, exposição de 10 J/cm², aplicação de 20 segundos em seis pontos e três sessões realizadas em dias alternados.
Tanto o grupo ativo quanto o placebo melhoraram, mas não houve diferença significativa entre eles. Portanto, nesse estudo, a laseracupuntura não foi superior ao placebo.
Não é possível concluir que o resultado negativo ocorreu simplesmente porque os parâmetros eram “inadequados”. A amostra muito pequena, o número reduzido de sessões e a possibilidade de resposta contextual ou placebo também precisam ser considerados.
Ensaio em pacientes com enxaqueca
Um ensaio cruzado com apenas 12 pessoas com enxaqueca crônica também não encontrou diferença significativa entre laseracupuntura ativa e placebo.
Os resultados variaram consideravelmente entre os participantes e não demonstraram um efeito clínico consistente além da resposta observada com o tratamento simulado.
Esse estudo é antigo e muito pequeno, mas não deve ser excluído da interpretação apenas porque seu resultado foi negativo.
Quais pontos de acupuntura foram utilizados?
Os protocolos reunidos pela revisão empregaram diferentes combinações de pontos.
Entre os pontos distais estavam:
- IG4 (hegu);
- E36 (zusanli);
- TA5 (waiguan);
- VB34 (yanglingquan);
- F3 (taichong);
- ID3 (houxi);
- B60 (kunlun);
- P7 (lieque).
Entre os pontos locais ou cefálicos estavam:
- VB20 (fengchi);
- VB14 (yangbai);
- VG20 (baihui);
- VG29 (yintang);
- B10 (tianzhu);
- VB2 (tinghui);
- VB3 (shanguan);
- VB21 (jiangjing).
Alguns estudos utilizaram protocolos fixos. Outros selecionaram os pontos de maneira individualizada, considerando a apresentação clínica e o diagnóstico segundo a Medicina Chinesa.
A frequência com que um ponto apareceu nos estudos não demonstra que ele seja mais eficaz. A revisão apenas mostra quais pontos foram utilizados, não quais foram responsáveis pelos resultados.
Quais parâmetros do laser foram empregados?
Os parâmetros variaram consideravelmente entre os ensaios.
| Parâmetro | Valores encontrados |
|---|---|
| Comprimento de onda | Aproximadamente 660 a 905 nm |
| Potência óptica | Em vários protocolos, aproximadamente 30 a 50 mW |
| Energia por ponto | Em alguns estudos, aproximadamente 0,9 a 1,3 J |
| Densidade de Energia | 10 J/cm² em um dos protocolos |
| Tempo por ponto | Aproximadamente 20 a 43 segundos em vários estudos |
| Emissão | Contínua ou pulsada |
| Aplicação | Geralmente em contato e perpendicular à pele |
| Número de sessões | De três aplicações a tratamentos realizados durante várias semanas |
É importante diferenciar as grandezas físicas:
- energia, expressa em joules;
- potência, expressa em watts ou miliwatts;
- tempo, expresso em segundos;
- área irradiada, expressa em centímetros quadrados;
- densidade de energia, frequentemente chamada de fluência, expressa em J/cm²;
- irradiância, expressa em W/cm² ou mW/cm².
Uma dose de 1,3 J por ponto não é equivalente a 10 J/cm². Para relacionar essas duas informações, é necessário conhecer a área do feixe.
Da mesma forma, não é tecnicamente correto recomendar “entre 0,9 e 1,3 J ou 10 J/cm²” como se fossem alternativas diretamente comparáveis.
Existe um protocolo mais eficaz?
Não.
Os estudos positivos utilizaram diferentes:
- comprimentos de onda;
- potências;
- doses;
- pontos;
- frequências de tratamento;
- critérios diagnósticos;
- períodos de acompanhamento.
Por isso, a revisão não permite determinar que a faixa de 830 a 905 nm seja superior à de 660 nm, nem que os protocolos mais longos sejam necessariamente melhores.
Comparar estudos diferentes e atribuir seus resultados a apenas um parâmetro produz uma associação indireta, não uma demonstração de causalidade.
Um estudo mais longo pode ter obtido melhor resultado devido ao número de sessões, à população estudada, ao tipo de cefaleia, à seleção dos pontos, à dose, ao acompanhamento ou à combinação desses fatores.
O que a revisão mostra sobre segurança?
A laseracupuntura foi, em geral, bem tolerada. Alguns estudos relataram explicitamente ausência de eventos adversos importantes.
Entretanto, ausência de relato não é necessariamente ausência de eventos.
Para afirmar segurança com maior confiança, os ensaios precisariam descrever de maneira padronizada:
- como os eventos adversos foram investigados;
- quais sintomas foram monitorados;
- durante quanto tempo os participantes foram acompanhados;
- se houve piora transitória da dor;
- se ocorreram reações cutâneas ou desconfortos;
- quais medidas de segurança ocular foram empregadas.
Uma revisão mais ampla sobre segurança encontrou poucos eventos adversos relacionados à laseracupuntura, geralmente leves e transitórios, mas também identificou falhas na forma como muitos ensaios monitoraram e relataram esses eventos.
Quais são as principais limitações da evidência?
A interpretação deve considerar:
- apenas cinco ensaios clínicos incluídos;
- amostras pequenas;
- inclusão de adultos e crianças;
- combinação de enxaqueca e cefaleia do tipo tensional;
- diferentes critérios de seleção dos pontos;
- protocolos fixos e individualizados;
- grande variação dos parâmetros ópticos;
- número de sessões muito diferente;
- desfechos e períodos de acompanhamento distintos;
- resultados positivos e negativos;
- descrição incompleta de alguns parâmetros;
- dificuldade de reunir os resultados em uma única estimativa de efeito.
Uma revisão sistemática anterior, publicada em 2022, avaliou quatro ensaios de fotobiomodulação para cefaleias primárias. Embora tenha identificado possível efeito clinicamente importante sobre a dor, classificou a certeza da evidência como baixa e considerou os dados insuficientes para sustentar o uso clínico da intervenção.
A revisão de 2026 amplia o levantamento, mas não elimina essas limitações.
O que isso significa para a prática clínica?
A laseracupuntura pode ser considerada uma opção complementar e não invasiva, especialmente para pacientes que:
- apresentam aversão ou contraindicação relativa ao uso de agulhas;
- aceitam melhor intervenções não invasivas;
- necessitam de estratégias adicionais ao tratamento convencional;
- foram adequadamente avaliados quanto ao tipo de cefaleia.
Entretanto, os parâmetros encontrados na revisão não devem ser transformados diretamente em uma receita clínica.
Antes da aplicação, é necessário:
- identificar o tipo de cefaleia;
- investigar sinais de alerta para cefaleia secundária;
- compreender a frequência, duração e intensidade das crises;
- definir os objetivos do tratamento;
- selecionar os pontos segundo o raciocínio clínico da Medicina Chinesa e Ocidental;
- registrar integralmente os parâmetros do laser;
- acompanhar os resultados por meio de escalas e diário de cefaleia;
- reavaliar periodicamente a resposta.
O profissional também precisa distinguir a aplicação em pontos de acupuntura da irradiação direta de músculos, nervos, pontos-gatilho ou regiões dolorosas. Embora possam ser combinadas, essas intervenções não são equivalentes e envolvem racionalidades terapêuticas diferentes.
Leitura Clínica
A evidência disponível sugere que alguns protocolos de laseracupuntura podem reduzir a intensidade, a duração e a frequência das cefaleias, especialmente em determinados grupos com cefaleia do tipo tensional e em um pequeno ensaio pediátrico.
A quantidade de estudos é pequena, existem ensaios sem superioridade em relação ao placebo e os protocolos são heterogêneos demais para definir uma dose ou combinação de pontos ideal.
Portanto, não existe protocolo padrão, nem com relação a parâmetros do laser ou pontos de aplicação. É preciso considerar as especificidades de cada paciente.
Referência
Nagi R, Ravipati V, Kumar SS, Sodhi GS, Altuhafy M, Khan J. Effectiveness of laser acupuncture in managing headaches: a systematic review of randomized clinical trials. Journal of Acupuncture and Tuina Science. 2026;24(2):200–212. DOI: 10.1007/s11726-026-1547-z.

